Título: Empresas voltam a captar no exterior
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/05/2009, Economia, p. B1
Companhias brasileiras já levantaram este ano mais de US$ 3 bi; movimento deve ampliar oferta de crédito no País
Leandro Modé
O otimismo que contagiou os investidores estrangeiros nas últimas semanas, responsável por grande parte da recente valorização do real e do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa), começa a se espalhar para outros mercados. Um deles é o de dívida corporativa.
Depois de enfrentarem enormes dificuldades para obter crédito entre setembro e dezembro do ano passado, empresas brasileiras voltam, aos poucos, a vender bônus no exterior.
Há ao menos dois pontos importantes nesse movimento. O primeiro deles é a confirmação da percepção externa positiva sobre o Brasil, uma vez que companhias brasileiras têm conseguido condições de financiamento melhores do que suas pares de países como Rússia e México. O segundo ponto é o efeito que essas captações podem ter sobre o crédito doméstico.
No auge da crise internacional, o mercado global de capitais ficou paralisado. Com isso, empresas brasileiras que costumavam tomar dinheiro emprestado lá fora tiveram de recorrer a bancos nacionais, prejudicando outros tomadores, como as pessoas físicas. Um caso exemplar foi o da Petrobrás, que em novembro precisou de um empréstimo de emergência de R$ 2 bilhões e acabou no guichê da Caixa Econômica Federal - tipo de operação incomum no País.
"A crise levou os bancos no mercado internacional a retraírem suas operações de crédito. Com isso, houve um congestionamento, uma redução da capacidade de o sistema financeiro atender a todos", disse ao Estado, em outubro, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fabio Barbosa.
A entidade estima que o capital externo responda por cerca de 20% do total de crédito no País. "Uma melhora no exterior vai se refletir positivamente na oferta de financiamentos", diz o economista-chefe da Febraban, Rubens Sardenberg.
Entre janeiro e meados de maio, as empresas captaram lá fora pouco mais de US$ 3 bilhões. Para se ter uma ideia, em todo o segundo semestre de 2008, essas operações totalizaram pouco mais de US$ 500 milhões. O governo também aproveitou a oportunidade e já levantou US$ 1,75 bilhão neste ano.
Segundo profissionais do mercado financeiro, há várias outras captações no radar. O Estado apurou que a Eletrobrás já contratou até banco para comandar uma emissão. Petrobrás, Vale e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também estão analisando opções.
"Os bancos percebem as melhores condições e vão atrás das empresas, que, por sua vez, estão desengavetando projetos de emissão", diz o vice-presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Alberto Kiraly.
Quem reabriu o mercado para as emissões brasileiras no exterior foi o Tesouro, que em janeiro captou US$ 1,25 bilhão. Em fevereiro, a Petrobrás obteve US$ 1,5 bilhão. Em março, os investidores se retraíram e não houve emissão brasileira.
Abril foi o mês mais forte da retomada até agora: a Odebrecht fez uma operação de US$ 200 milhões, a Telemar, de US$ 750 milhões, e a JBS-Friboi, de US$ 700 milhões. Em maio, o Tesouro voltou ao mercado e levantou US$ 750 milhões. Segundo o governo, a demanda foi muito superior à oferta.
A Odebrecht também percebeu uma procura bastante superior ao que foi oferecido. "Poderíamos ter captado mais do que os US$ 200 milhões", conta o diretor financeiro da companhia, Paulo Cesena.
Líderes da emissão da Odebrecht, Santander e o Itaú BBA dizem que vem mais por aí. "As empresas estão olhando o mercado com atenção. Vai ter muita coisa", afirma o diretor de Operações Estruturadas do Santander, Jean Pierre Dupui. "Estamos assistindo ao renascimento desse mercado", diz Douglas Chen, vice-presidente sênior da Itaú Securities.
FRASES
Rubens Sardenberg Economista da Febraban
"Uma melhora no exterior vai se refletir positivamente na oferta de financiamentos (no Brasil)"
Jean Pierre Dupui Diretor do Santander
"As empresas estão olhando o mercado com atenção. Vai ter muita coisa"
Douglas Chen Vice-presidente da Itaú Securities
"Estamos assistindo ao renascimento desse mercado"