Título: Lula muda discurso sobre saída de Sarney: Não é problema meu
Autor: Oliveira, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/07/2009, Nacional, p. A4
Presidente recua na defesa pública ao senador e diz que permanência dele no cargo é questão do Senado
Clarissa Oliveira
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Depois das sucessivas declarações de apoio ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro ontem que não está mais disposto a sair publicamente em defesa do peemedebista. Lula, que há apenas alguns dias falava em respeito à "biografia" de acusados e afirmava que nem tudo pode ser tratado como "crime de morte", dessa vez declarou que a permanência de Sarney no cargo é um problema que cabe exclusivamente ao Senado.
"Não é problema meu. Não votei no presidente Sarney para ser presidente do Senado. Nem votei nele para ser senador no Maranhão", disse Lula, que se atrapalhou ao citar o Estado representado pelo peemedebista na Casa - ele foi eleito pelo Amapá. "Não votei no Arthur Virgílio, não votei em ninguém. Eu votei nos senadores de São Paulo. Então, quem tem que decidir se o presidente Sarney tem de ficar na presidência do Senado é o Senado, não eu", concluiu.
A situação de Sarney vem se complicando a cada semana, desde que veio a público o esquema de edição de atos secretos no Senado, revelado pelo Estado no dia 10 de junho. A lista de acusações que cercam o presidente do Senado já inclui desde a prática de nepotismo até a suspeita de desvio de recursos referentes a um patrocínio da Petrobrás para a fundação que leva o seu nome, passando pelo favorecimento de seu neto na operação de um esquema de crédito consignado na Casa.
As declarações foram feitas ao lado da presidente do Chile, Michelle Bachelet, que foi recebida por Lula e outras autoridades em um evento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Sem disfarçar o desconforto em tocar no assunto da crise no Senado, Lula negou que tenha planos de se reunir na semana que vem com Sarney para discutir a possibilidade de o peemedebista renunciar ao comando da Casa. "Não há nenhum pedido de conversa com o presidente Sarney", garantiu o presidente.
RESPONSABILIDADE
Lula preferiu jogar a responsabilidade de solucionar a crise no colo dos senadores e disse que o País sai prejudicado com a paralisia do Legislativo. "Tudo o que eu espero é que o Congresso, agora com a cabeça fria, depois de 10 dias férias para todo mundo, em que cada um foi viajar, descansar, converse. Que se reúnam, como os homens adultos que são, todos com mais de 35 anos de idade, e decidam normalizar a situação do Senado."
Diante do agravamento recente da crise, após o Estado revelar que Sarney negociou com o filho Fernando Sarney a contratação do namorado de sua neta na Casa, Lula já havia sido orientado por auxiliares a amenizar o apoio ao peemedebista. Antes disso, ele não apenas distribuía declarações favoráveis ao senador, como chegou a enquadrar a bancada do PT quando senadores ameaçaram pedir o afastamento do peemedebista. No início desta semana, Lula reuniu a coordenação política do governo e desautorizou o líder petista Aloizio Mercadante (SP) a falar em nome da bancada, após o senador pedir, em nota, a licença de Sarney do cargo.
Ontem, diante da insistência dos jornalistas em tratar do assunto, Lula disfarçou a irritação. Questionado se estava disposto a comprar uma briga com seu próprio partido, tirou os óculos, virou-se para a presidente chilena e pediu que lhe desse a palavra. "Deixa eu hablar, Michelle", arriscou.
IRRITAÇÃO
Em seguida, voltou-se aos repórteres: "O que é que vocês acham que posso dizer sobre o destino da bancada do PT se eles estão em férias e só vão voltar na segunda-feira? Não posso dizer absolutamente nada." Em tom irônico, ele então orientou os jornalistas a telefonarem na segunda-feira aos líderes petistas e ao presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). "Certamente, ele gostará de dar a vocês informações sobre como o partido está vendo as divergências do PT."