Título: Papéis indicariam como propina foi remetida a Jersey
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/08/2009, Nacional, p. A10

Força-tarefa que investiga Maluf diz ter rastreado o caminho de "comissões" pagas por empreiteira

Jamil Chade, GENEBRA

A força-tarefa encarregada de investigar o deputado Paulo Maluf (PP-SP) diz ter rastreado o caminho de suposta propina da construtora Mendes Júnior ao ex-prefeito de São Paulo. As 15 remessas, entre 8 e 28 de janeiro de 1998, totalizaram US$ 11 milhões. O escritório do advogado Andrew Witts, contratado pela prefeitura, sustenta que os valores se referem a "propinas e comissões secretas" entregues pela empreiteira a Maluf. A Mendes Júnior foi uma das contratadas nas obras da Avenida Água Espraiada.

Em abril, o juiz Michael Birt, da Ilha de Jersey, determinou o bloqueio do dinheiro. Os valores atualizados somam US$ 22 milhões, supostamente convertidos em ações da Eucatex, empresa controlada pela família Maluf. O dinheiro seria parte do esquema que transferiu recursos públicos nos anos 90. O Deutsche Bank ainda chegou a um acordo com o Ministério Público para devolver aos cofres públicos US$ 5 milhões que estariam em contas de Maluf.

Documentos obtidos pelo Estado apontam que, em 8 de janeiro de 1998, uma transferência de R$ 2 milhões foi feita à família pela construtora. Entre 1997 e 1998, a construtora recebeu cerca de R$ 57,2 milhões da prefeitura como pagamento por contratos. O dinheiro, segundo Witts, era obtido por meio de recibos falsos entregues pela construtora.

As supostas propinas pagas para Maluf e sua família iam para a conta Chanani, no Banco Safra de Nova York. De lá, os recursos seguiam para as contas da Durant Internacional, uma offshore, nos bancos Deutsche, Morgan e Grenfell Limited, em Jersey, entre 14 e 23 de janeiro de 1998.

A Durant International, assim como a offshore Kildare Finance, seriam controladas pela família. Uma carta do escritório de advogados de Genebra Schellenberg Wittmer ao Deutsche Bank de Jersey confirmaria a ligação entre as offshores e Maluf. Uma ex-funcionária do escritório, que pediu anonimato, revelou ao Estado que, de fato, seus advogados representavam Maluf no caso.

Segundo documento enviado pela prefeitura à Justiça de Jersey, as empresas offshore registraram um enriquecimento ilícito graças às transferências de recursos à custa da cidade de São Paulo. No processo, Witts cita uma série de pessoas que teriam sido envolvidas no esquema, como Simeão Damasceno de Oliveira, diretor financeiro da Mendes Júnior, e Joel Guedes Fernandes, também funcionário da construtora.

RESPOSTAS

A assessoria de Maluf diz que ele "não tem e nunca teve contas no exterior". Em nota, a Mendes Júnior informou não ter conhecimento dos fatos mencionados. Afirma que "não faz nem nunca fez recebimentos ou pagamentos que não sejam rigorosamente legais e transparentes". E finaliza: "A movimentação de recursos do grupo no Brasil e no exterior é realizada de acordo com a legislação brasileira e dos países em que se instala."

COLABORARAM BRUNO TAVARES e MARCELO GODOY