Título: Petróleo mais caro ameaça a recuperação
Autor: Ciarelli, Mônica
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/08/2009, Economia, p. B4

O aumento do preço do petróleo põe em risco a recuperação da economia mundial. O alerta foi feito esta semana pela Agencia Internacional de Energia (AIE) e deveria estar sendo analisado pela equipe do governo que avalia as regras do pré-sal. A AIE, criada após o choque do Petróleo de 1973, vigia o mercado e aconselha os países consumidores para evitar novas crises.

"A economia mundial não sustenta nenhum crescimento maior do preço do petróleo", afirma o economista-chefe da AIE, Fatih Birol. Qual o preço que seria danoso? "Qualquer preço acima de US$ 70 vai conter a recuperação mundial", disse ele ao Financial Times. Ontem, fechou em US$ 72. Fora os fatores especulativos no mercado futuro e pressões geopolíticas no Oriente Médio (que hoje são poucas), a cotação do petróleo varia basicamente pela demanda mundial. E essa depende da recuperação e do crescimento econômico. É um circulo delicado.

Antes da crise, o barril do petróleo chegou a US$147 e despencou para até US$ 31 pouco antes do fim de 2008. A recuperação atual está sendo em parte explicada pela retomada da economia chinesa e de outros países emergentes, como Brasil e India. Há, ainda, a pressão dos governos, principalmente do G-7, sobre o mercado especulativo. Para Birol, maior regulamentação e vigilância do mercado são importantes. "Mas não vão reduzir os preços de forma significante." O que o determina mesmo é consumo e estoque.

"Os menores preços do petróleo e de outras commodities no fim do ano passado, provocado pela crise e a recessão, foram mais benéficos para a economia do que qualquer estimulo governamental",acrescenta Francisco Blanch,estrategista do Bank of América.

PARA O PRESIDENTE PENSAR

Esse alerta da AIE deveria pesar nas decisões do governo por causa da relação entre custo, preço, investimento e subsídios. Mas parece que até agora não se pensou muito nisso em Brasília. Não é para discutir o custo economicamente viável do barril do pré-sal simplesmente porque não se sabe ainda. O que se sabe é que é acima de US$ 60, mais perto de US$ 70.

A AIE, em seus estudos, já levantou o problema da relação preço/investimento. Teme que preços muitos baixos desestimulem investimentos em novos campos ou melhor aproveitamento dos atuais. A agencia reconhece que, nesse caso, eles podem ser reduzidos entre 15% e 20%. Neste ano, já houve uma queda de 32% no numero de poços de prospecção.

MAS NÓS, NÃO

É verdade que o caso do petróleo de Santos é especial. Mesmo custando muito mais para extrair e boa parte das reservas sejam ainda pouco conhecidas, algumas problemáticas, temos duas grandes vantagens. Primeiro, o nosso petróleo não se concentra em áreas geopoliticamente tensas. A outra é o volume estimado das reservas, que podem até passar de 50 bilhões. É a maior descoberta dos últimos tempos. Tudo isso em mares tranquilos, num país econômica e politicamente estável, numa região que nem o "generalíssimo" Chávez consegue conturbar.

Sem dúvida, as transacionais dos grandes consumidores, como EUA, China e até a União Europeia, estarão interessados no petróleo do pré-sal. O assessor de Segurança Nacional dos EUA, James Jones, acaba de afirmar isso, em Brasília.

Mas não vamos nos entusiasmar muito com a conversa dele. O que ele promete é financiamento do Eximbank americano, que não tem muito dinheiro e beneficia apenas as compras feitas na indústria americana, o que limita a oferta. Além disso, não quem decide mesmo se vai investir no pré-sal não é o governo americano, mas as multinacionais do petróleo. E elas já provaram, no último choque do petróleo - o terceiro -, que pouco se interessam pelo que o governo pensa. Querem e tiveram lucros fantásticos com o petróleo em US$ 140. A Petrobrás também. Nessas horas, é "privada"; só é estatal quando precisa do governo e do BNDES.

E SE CHEGAR A US$ 70?

É esse o cenário que preocupa a AIE. E o preço pode até passar disso se, felizmente, a economia mundial continuar saindo da recessão. Mas, acima disso, porá em risco essa recuperação, afirma a AIE.

E o que acontece com a gente? Se o preço subir, ótimo para a Petrobrás, péssimo para Brasil. A demanda interna, que decididamente está salvando a economia, foi estimulada também pelos preços baixos, pela inflação controlada. E o preço administrado dos derivados do petróleo teve um grande peso nesse comportamento. Mas, ora, sr. colunista, eles não subiram tanto mesmo com o petróleo a mais de US$100!

Sim, porque o governo (nós) subsidiou e a Petrobrás reduziu seu lucro. E não podemos continuar fazendo isso? Podemos, sim, mas a um custo pelo menos 60% maior simplesmente porque, com o petróleo mais caro do pré-sal, extraído não mais por US$ 12 o barril, como hoje, e sim a mais de US$ 60, o ônus do subsidio do governo será maior. Além disso, ele receberá menos do que a Petrobrás lhe repassa como participação nos lucros, impostos e outros encargos. Hoje, algo em torno de R$ 40 bilhões por ano - se é que se pode entender essa complicada e hermética "conta petróleo".

Há mais. A Petrobrás teria menos recursos para investir no pré-sal. Vai ter que pedir mais dinheiro ao BNDES, endividar-se no mercado interno e no exterior. Como é uma estatal de capital aberto, você pode adivinhar de quem é parte desse endividamento.

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