Título: EUA sugerem novos acordos com o Brasil
Autor: Landim,Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/09/2009, economia, p. B11
Para evitar retaliação comercial, representante americano propõe negociação sobre investimentos e bitributação
Em sua primeira visita ao Brasil, o novo representante comercial dos Estados Unidos, Ronald Kirk, vai sugerir ao País mecanismos para ""administrar"" as relações entre os dois países. Para o governo do presidente americano Barack Obama, selar novos acordos bilaterais pode ser uma forma de resolver conflitos como o contencioso do algodão.
Kirk não quis antecipar ontem, em encontro com empresários em São Paulo, as propostas que levará hoje ao ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim. Mas deixou escapar algumas pistas. Ele citou acordos de investimento, de bitributação e deixou em aberto até a possibilidade de ressuscitar uma negociação de livre comércio.
""Ter algum desses acordos em vigor pode nos ajudar a fortalecer o que já é uma boa relação"", disse Kirk no evento da Câmara Americana de Comércio (Amcham). ""Todos reconhecem que ter uma estrutura mais formal para as relações de comércio é bom.""
Os acordos de proteção de investimento e bitributação são reivindicações antigas dos empresários, mas as discussões estão paradas no Congresso. Já as negociações para um acordo de livre comércio entre os EUA e o Mercosul estão paralisadas desde o fim das discussões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
A sutil sinalização americana ocorre em um momento delicado. Como os americanos se recusam a retirar os subsídios aos produtores de algodão, a Organização Mundial de Comércio autorizou o Brasil a retaliar, por exemplo, quebrando patentes de medicamentos.
O tema é sensível para a poderosa indústria farmacêutica americana. Ontem, o evento da Amcham era patrocinado pela Merck Sharp & Dome. Quando um empresário perguntou o que os EUA poderiam fazer para evitar a quebra de patentes, Kirk brincou que ""mais parecia um pedido de ajuda do que uma pergunta"". E reiterou sua expectativa de que o Brasil opte por não retaliar. ""Não quero prejulgar nada, por enquanto, porque o Brasil ainda vai decidir.""
O americano fez apenas uma menção formal à Rodada Doha. Afirmou que a conclusão da Rodada pode estimular o crescimento econômico, mas é preciso encontrar um resultado balanceado. Amorim tem criticado o governo Obama por sua reticência em avançar nas negociações multilaterais.
Na conversa com os empresários, Kirk ressaltou que o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos é muito pequeno. Em 2008, o Brasil exportou US$ 27,6 bilhões para os EUA e importou US$ 25,8 bilhões .
Indagado sobre as tarifas impostas contra os pneus chineses, Kirk disse que a proteção já estava prevista nas regras aceitas pela China ao entrar na OMC. ""No curto prazo, pode ser que os EUA comprem mais pneus do Brasil."" Ontem à tarde, Kirk se reuniu com empresários e sindicalistas, mas o governo americano não divulgou os nomes. Hoje, ele se encontra com Amorim e outras autoridades em Brasília.