Título: EUA preparam nova mudança de estratégia para o Afeganistão
Autor: Mello,Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/09/2009, Internacional, p. A12
Pela segunda vez em cinco meses, Pentágono elabora plano contra insurgência; aumento de tropas em estudo
O principal comandante americano no Afeganistão, o general Stanley McChrystal, afirmou ontem que é preciso "rever a estratégia" de combate à Al-Qaeda e ao Taleban no país. "A situação no Afeganistão é séria, mas ainda é possível vencer a guerra. Isso vai exigir uma revisão na estratégia e mais unidade de esforços", disse o general em um comunicado. É a segunda vez em cinco meses que os EUA anunciam mudança de seu plano de ação para o Afeganistão.
McChrystal entregou ontem ao Pentágono e à Otan um relatório sobre a situação no Afeganistão e as mudanças necessárias. Ele vem preparando o documento desde que assumiu o comando do front afegão, em abril.
AUMENTO DE TROPAS
Em seu relatório, McChrystal não vai pedir o aumento no número de soldados. Segundo fontes da Otan, entretanto, a solicitação deverá ser feita em um documento separado. Especialistas antecipam que a decisão de aumentar a presença militar no Afeganistão será politicamente delicada para o presidente Barack Obama. A situação no Afeganistão vem se deteriorando e o número de soldados americanos mortos neste mês chegou a 179 - recorde desde o início da guerra, há oito anos.
A indefinição da eleição e as acusações de fraude, aliadas à corrupção no governo do presidente Hamid Karzai, exacerbam os problemas. Nas últimas apurações, Karzai liderava com 46%, seguido de Abdullah Abdullah com 33%. Se Karzai não obtiver mais de 50% dos votos, haverá segundo turno.
Mas a legitimidade das eleições está ameaçada por causa das inúmeras acusações de fraude e de intimidação de eleitores. Ontem, um afegão que teve seu nariz e suas orelhas cortadas pelo Taleban ao tentar votar falou com jornalistas do hospital onde está internado (mais informações nesta página).
O relatório de McChrystal foi enviado a David Petraeus, chefe do Comando Central dos EUA (que cobre Iraque e Afeganistão), e para um alto comandante da Otan. Os dois vão fazer comentários sobre o relatório e enviar a seus respectivos superiores - o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, afirmou que é consenso entre comandantes militares e civis que os esforços dos EUA no Afeganistão "tiveram recursos políticos, militares e econômicos insuficientes por muito tempo". Mas ele se esquivou quando indagado se Obama iria considerar o envio de mais tropas para o país.
A guerra é cada vez mais impopular e tanto Obama quanto o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Jim Jones, deram indicações de que a Casa Branca vai relutar em acatar pedidos dos militares para mandar mais soldados. "Vamos ler o relatório" antes de falar sobre o assunto, disse Gibbs. "O relatório é uma avaliação sobre a situação atual e o que precisa mudar. Recomendações específicas de recursos serão feitas nas próximas semanas, mas não são parte desse relatório."
O secretário de Defesa afirmou esperar uma avaliação dura, mas realista, no relatório de McChrystal. Ele afirmou que examinará eventuais pedidos do general para envio de mais soldados e recursos, mas que há outros fatores a considerar. "Eu já demonstrei preocupação em relação ao tamanho da presença americana no país, e nós precisamos ver qual é a disponibilidade de tropas, os custos, vários fatores."