Título: BC interrompe cortes de juros e Selic fica em 8,75%
Autor: Nakagawa,Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2009, Economia, p. B7

Após 5 quedas, Copom estabiliza taxa por considerá-la "consistente com um cenário inflacionário benigno"

Em uma decisão já esperada pelo mercado, o Banco Central anunciou ontem a manutenção da taxa básica de juros em 8,75% ao ano. Após cinco quedas seguidas da Selic, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou pela estabilidade por entender que é preciso aguardar o efeito da redução de juros realizada ininterruptamente entre janeiro e julho. Para o mercado financeiro, esse patamar deve continuar inalterado até, pelo menos, o último trimestre de 2010.

A nota divulgada após o anúncio foi muito semelhante à apresentada em julho. Para explicar a decisão, os diretores do comitê disseram que o patamar de 8,75% é "consistente com um cenário inflacionário benigno".

Na visão do Copom, esse nível vai contribuir para "assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas" e "para a recuperação não inflacionária da atividade econômica". O texto mostra, ainda, que a decisão aconteceu a despeito da avaliação de que o parque produtivo, sobretudo a indústria, ainda conta com margem de ociosidade.

De 70 instituições financeiras consultadas pela Agência Estado, todas apostavam na manutenção da Selic. Tamanho consenso foi construído ao longo das últimas semanas com as claras demonstrações da autoridade monetária de que é preciso interromper o ciclo de cortes do juro para observar o efeito do desaperto nos juros realizado nos sete primeiros meses do ano, período em que a taxa caiu 5 pontos porcentuais.

Essa sequência serviu para amenizar o efeito da crise sobre o Brasil.

Mas agora, com sinais mais consistentes de retomada da atividade doméstica, o Copom entende que é preciso interromper o movimento.

"O juro deve seguir nesse patamar até, pelo menos, meados do quarto trimestre de 2010. O BC tem sido muito claro de que é necessário esperar mais dados econômicos para avaliar melhor como será a reação da economia aos cortes já realizados", diz a economista-chefe da Bradesco Asset Management, Ana Cristina da Costa.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, admitiu nas últimas semanas que pode se filiar a algum partido político até o fim de setembro - conforme o prazo legal - para, eventualmente, disputar as eleições de 2010. Caso isso ocorra, essa terá sido a última reunião do Copom com Meirelles sem filiação partidária.

Apesar de o assunto ter ganhado as páginas dos jornais e as conversas no mercado financeiro recentemente, Ana Cristina não teme que as decisões do Comitê possam ser diretamente influenciadas por um eventual viés político. ""Uma saída de Meirelles para ser candidato poderia tornar o colegiado ainda mais conservador para mostrar que a autoridade monetária está vigilante e, mesmo em uma eventual troca de nomes, as diretrizes de atuação continuarão as mesmas", diz a economista.