Título: Países voltam a discutir Doha, enquanto aumentam os subsídios
Autor: Chade,Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2009, Economia, p. B11
Brasil e outros emergentes vão pressionar europeus e americanos a mostrar disposição de abrir seus mercados
Alegando necessidade de ajudar setores mais afetados pela crise, os países ricos multiplicam seus subsídios à agricultura. Hoje, ministros das maiores economias se reúnem na Índia para debater como retomar a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas, enquanto os discursos serão usados para mostrar compromisso com a reforma do sistema comercial, a realidade é que americanos e europeus ampliam os subsídios. Em alguns setores, o aumento é de 400% nos últimos três anos.
O Brasil e outros países emergentes darão uma mensagem de que está na hora de o governo americano mostrar o que está disposto a fazer para abrir seu mercado e, sobretudo, reduzir os subsídios agrícolas. O encontro, que ocorre com a participação do chanceler Celso Amorim, foi organizado para tentar dar um sinal ao G-20 (grupo das 20 maiores economias) e visa a oferecer à cúpula do grupo visões do que fazer para avançar com Doha, em crise.
O Itamaraty deixa claro que está insatisfeito com o comportamento do presidente Barack Obama que, em nove meses, ainda não deu sinal de qual será sua política comercial.
A esperança, em Nova Délhi, é de que a Casa Branca finalmente revele sua estratégia. Para o secretário de Comércio da Índia, Rahul Khullar, a meta da reunião é garantir que todos voltarão a negociar "de boa-fé".
Mas Roberto Azevedo, embaixador do Brasil na OMC, alerta que os EUA não têm cumprido nem as regras do passado, o que põe em risco a credibilidade das novas negociações que já duram oito anos.
Nos EUA, os subsídios ilegais para alguns setores cresceram de US$ 1,3 bilhão em 2006 para mais de US$ 4,6 bilhões neste ano. Não por acaso, o presidente do Conselho Nacional do Algodão nos EUA, Mark Langer, se recusa a dizer quanto estão recebendo por ano. "Eu não tenho esse número de cabeça", alegou, ao ser indagado pelo Estado. No setor de carnes, trigo e milho, os subsídios também se multiplicaram.
O motivo teria sido a queda na renda do agricultor, causada pela redução dos preços de commodities e o desabamento no consumo mundial. "Os subsídios aumentaram de forma impressionante", afirmou Haroldo Cunha, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Algodão.
No setor de carnes, os subsídios americanos ainda estão deslocando as exportações brasileiras em terceiros mercados. Mas, em seus discursos, os americanos dão uma versão diferente. "Dezenas de ministros estão trabalhando o máximo que podem para permitir uma conclusão da Rodada", afirmou Ronald Kirk, representante de Comércio dos Estados Unidos.
Ele insiste que a mudança de governo abrirá caminho para um acordo. "O que fará a diferença é que há uma mudança no governo dos Estados Unidos, da Índia, África do Sul e outros. Há uma nova casta de países com uma nova liderança e vontade para fazer as coisas acontecerem", disse.
Na Europa, a queda dos preços de commodities levou agricultores a protestar nas ruas de Bruxelas, principalmente representantes do setor do leite. A Comissão Europeia retomou alguns dos subsídios que havia prometido eliminar. Nesta semana, a comissária de Agricultura da UE, Mariann Fischer Boel, anunciou que o setor lácteo receberia 4 bilhões suplementares em ajuda.
A pressão por barreiras também aumenta. Nesta semana, a Associação Irlandesa de Produtores de Carne enviou uma carta à Comissão Europeia pedindo o fechamento total do mercado europeu para a carne bovina brasileira. O problema sanitário entre Brasil e Europa se prolonga por anos com cortes importantes à entrada da carne nacional.