Título: G-20 volta a se reunir, mas pode perder força
Autor: Mello,Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2009, Economia, p. B13
Desafio da reunião de Pittsburgh é não cair na complacência
Na última vez que os líderes das 20 maiores economias (G-20) se reuniram, em abril, em Londres, a crise financeira estava no auge e muitos países haviam mergulhado na recessão. Quase seis meses depois, o mundo respira aliviado. Escapou de um repeteco da Grande Depressão de 30. Na sexta-feira, quando líderes dos países do G-20 se reunirem na cidade de Pittsburgh, o desafio será não cair na complacência. Como a economia melhorou, não há mais aquela urgência de fazer reformas, que são necessárias para evitar que os países entrem na chamada recessão de "duplo mergulho", quando depois de uma breve recuperação, voltam a se retrair.
Em princípio, os países do G-20 estão de acordo sobre as mudanças necessárias: maior regulamentação financeira, principalmente de capitalização dos bancos e remuneração de executivos; mais poder para os emergentes no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial (Bird); mecanismos para evitar o agravamento dos desequilíbrios mundiais, como excessivos superávits da China e enormes déficits dos EUA; evitar medidas protecionistas que vão bloquear a recuperação do comércio; manter as medidas de estímulo, mas desenhar estratégias de retirada das ações extraordinárias, para lidar com os problemas fiscais dos países.
Mas o diabo mora nos detalhes. E, passado o pior da crise, muitos governos se mostram menos politicamente inclinados a enfrentar a enorme oposição doméstica a reformas impopulares. Além disso, a cúpula corre o risco de ser dominada pela questão mais populista - os salários dos executivos financeiros. "Em Londres, o tema mais sexy foram os paraísos fiscais. Dessa vez, serão os supersalários", diz uma fonte do Ministério da Fazenda.
A França quer limites draconianos para a remuneração total de executivos, com multas para quem desrespeitar as regras. O Conselho de Estabilidade Financeira vai recomendar que bancos com baixo nível de capitalização sejam obrigados a limitar os bônus de seus executivos. Já o os EUA querem impor restrições, para que a compensação passe a incentivar resultados de longo prazo. Mas o Tesouro não apoia limites específicos para o valor das remunerações.
"Seria um desperdício se a reunião se restringisse a esses assuntos. Essa não é uma questão prioritária para o presidente Lula, por exemplo", disse ao Estado Ted Truman, economista do Peterson Institute of International Economics que trabalhou no Tesouro americano durante a preparação da cúpula de abril em Londres. "É necessário se focar nas questões essenciais para o G-20, como os desequilíbrios globais."
Os EUA e a Grã-Bretanha querem que a criação de mecanismos para lidar com os desequilíbrios globais seja parte central da reunião. "Esperamos chegar a um acordo para um modelo de crescimento equilibrado, que nos ajude a lidar com os desequilíbrios que levaram a esta crise", disse Michael Froman, vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA. Mas aí quem se opõe é a China, porque a conversa sobre desequilíbrios fatalmente se transforma em crítica ao modelo exportador chinês, seu grande superávit e o yuan desvalorizado.
"Os desequilíbrios certamente não foram a causa do problema. A principal causa da crise foi a falta de supervisão e o abuso com a abertura do mercado, altos níveis de endividamento e muita especulação", disse ao Financial Times Zhou Wenzhong, embaixador da China em Washington. A China quer focar a discussão no recrudescimento do protecionismo, já que o país é o principal alvo das muitas tarifas e medidas antidumping adotadas pelos países nos últimos tempos, apesar das promessas no G-20 de evitar medidas protecionistas. A tarifa de 35% imposta sobre pneus chineses pelos EUA esquentou a discussão.
O Brasil tem duas prioridades para a cúpula: consolidar o G-20 como foro de líderes e avançar na reforma do FMI e do Banco Mundial. Segundo uma fonte do Ministério da Fazenda, caso o comunicado mencione já a próxima reunião do grupo ou simplesmente reafirme a importância do G-20, isso já ajudaria a consolidá-lo como um substituto para G-7 e G-8.
Já no caso do FMI, o Brasil quer compromissos mais específicos em relação à reforma das cotas. Em comunicado depois da reunião em Londres de preparação para a cúpula, há duas semanas, os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) pedem a transferência de 7% das cotas dos países desenvolvidos no FMI para os emergentes, e 6% da fatia no Bird. O principal alvo é a participação dos europeus, que estão "sobrerrepresentados" no Fundo em relação a seu peso na economia mundial. Os EUA estão relativamente equilibrados e apoiam a mudança. Os Brics pedem também o fim da dobradinha EUA-Europa no comando do FMI e Bird.
Mas, no comunicado de Londres, o G-20 não se comprometeu com nenhuma meta específica de reforma das instituições multilaterais, a não ser "completar as reformas no Banco Mundial até a primavera de 2010 e a nova revisão de cotas do FMI até janeiro de 2011", prazos que já haviam sido estabelecidos anteriormente.
"Os europeus podem chegar à conclusão de que é melhor desistir de sua participação do que ter sua cota retirada", diz Domenico Lombardi, pesquisador do Brookings Institution. "O papel de mediação do diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, vai ser essencial. Essa será a primeira cúpula em que Obama será anfitrião, e ele gostaria de sinalizar o comprometimento dos EUA com o maior equilíbrio nas instituições multilaterais."
Outro ponto nevrálgico será o estabelecimento de exigências de capital para bancos. O secretário do Tesouro Timothy Geithner defende a imposição de limites fixos para a alavancagem dos bancos. Os europeus rejeitam a medida, porque adotam limites de endividamento de acordo com os riscos dos ativos - adotar a proposta americana obrigaria bancos europeus a levantar mais capital para se adaptar . O Brasil se alinha mais com os americanos, uma vez que tem limite de endividamento de 11%, já bem acima do acordo de Basileia, que determina 8%.
Os países se alinham ao dizer que a crise não acabou e ainda é preciso manter os pacotes de estímulo. Mas algumas nações, como a Alemanha, estão mais ansiosas em relação ao equilíbrio fiscal. Elas argumentam que os altos déficits e endividamento decorrentes das medidas emergenciais já causam inquietação em investidores, por causa do potencial inflacionário, e podem elevar os juros de longo prazo. Querem que já se desenhe uma estratégia de saída.
Os EUA têm uma visão um pouco menos urgente sobre a necessidade de estratégias de saída e teme que começar a retirar estímulo agora pode abortar a recuperação. O Brasil se alinha mais com a posição americana, de evitar uma saída prematura. "Achamos que a ênfase na retomada é essencial. Além do que, com o crescimento voltando, melhora a parte fiscal, porque aumenta a arrecadação", diz a fonte da Fazenda.