Título: Funcionário relata tensão no prédio
Autor: Efe; AP; Reuters
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/09/2009, Internacional, p. A10

Eram quase 11 horas da manhã de segunda-feira em Tegucigalpa quando tocou o telefone da embaixada do Brasil. Do outro lado da linha, uma representante em Honduras do Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE), o banco de fomento da América Central, pedia uma audiência urgente com o encarregado de negócios, Francisco Catunda. Audiência confirmada, minutos depois entrava no estacionamento da embaixada uma van da representante do BCIE. Mas ela não chegou sozinha. Dentro da van, escondidos, estavam o presidente deposto Manuel Zelaya, a mulher e os filhos.

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Foi assim, de acordo com o relato feito ao Estado por um funcionário da embaixada, o primeiro ato da operação que empurrou o Brasil para o centro da crise hondurenha. "A representante do banco foi direto falar com Catunda, que telefonou para Brasília para pedir autorização. Só depois o presidente Zelaya desceu do carro", contou. Em pouco tempo, Zelaya despachava no gabinete do embaixador Brian Michael Neelle Fraser, que Brasília retirou de Honduras após o golpe.

Desde o início, o presidente deposto tinha ao seu redor homens armados, seus guarda-costas pessoais, entre o staff de 30 pessoas. Os funcionários da embaixada não passavam de 13: 5 brasileiros e 8 hondurenhos. O contato com o mundo exterior só era possível por meio de telefone celular - o governo de facto havia cortado as linhas fixas e o fornecimento de energia elétrica e de água na noite de segunda-feira.

Como o prédio da embaixada é comercial, foi preciso improvisar. As refeições foram à base de pizza. Para driblar o cerco militar, vizinhos faziam os pedidos em serviços de delivery e passavam as caixas de pizza sobre o muro.

Na manhã de ontem, a tensão cresceu. "Membros do Exército ocuparam casas ao redor, tememos que ingressem a qualquer momento aqui", afirmou Xiomara, mulher de Zelaya, pelo celular, à repórter Luciana Alvarez.

Após a ação do Exército para retirar os manifestantes do entorno da embaixada, muitos deles pularam os muros e conseguiram entrar no prédio. No meio da tarde, chegava a 300 o número de militantes pró-Zelaya no interior da missão brasileira. Às 16 horas, a maioria começou a deixar o local em ônibus providenciados por ONGs. Os militares não permitiram mais o envio de pizza pelos vizinhos. "Até agora não almoçamos. Não tem o que comer", disse a fonte no final da tarde.