Título: Decolando
Autor: Ming, Celso
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/09/2009, Economia, p. B2

A sensação é de que a economia brasileira "voltou a bombar", como se diz em cada esquina.

Nas últimas duas semanas, três fatos contribuíram para afastar as ameaças de recaída. O primeiro deles foi a divulgação do IBGE de que já no segundo trimestre deste ano o PIB reagiu com firmeza ao mergulho ocorrido no primeiro e avançou 1,9%. Bastou esse dado para que as projeções fossem revistas de maneira a contar com um crescimento neste ano em torno de 1,0%. E, se isso se confirmar, o Brasil estará entre os cinco países que mais terão crescido em 2009.

Em seguida vieram as informações de que em agosto foram abertos 242,1 mil postos de trabalho, o melhor resultado desde setembro de 2008, notícia que surpreendeu até os analistas mais otimistas.

E, ontem, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, mostrou que as bases do fortalecimento da economia estavam presentes já em 2008. Basta a confirmação dessas condições para que a aeronave entre em voo de cruzeiro.

Uma coisa são os dados objetivos, que são inegavelmente promissores, ainda que se levem em consideração novos problemas à frente, o que abaixo ficará mais bem avaliado. E outra coisa é o fator multiplicador desses efeitos positivos tão logo se espalhe a percepção de que a virada ocorreu.

Talvez isso fique mais bem entendido se apontado de outro jeito. Enquanto o empresário permaneceu entocado com medo da crise, a velocidade da recuperação foi relativamente lenta. Foi o tempo em que as encomendas estancaram e as contratações de pessoal, mais ainda. Os projetos ficaram para depois e os estoques, quase zerados. O importante foi garantir o máximo de caixa para enfrentar a contenção do crédito e o encolhimento do consumo. Mas, a partir do momento em que cai a ficha de que o perigo passou, prevalece entre os agentes econômicos a necessidade de tirar o atraso, de se antecipar de forma a não ficar para trás, a não perder negócios nem participação no mercado.

Este é, então, o momento em que a fome se junta com a vontade de comer e o risco passa a ser outro: o de que o consumo corra à frente da produção. É o que, naquele dialeto da confraria, os economistas chamam de perigo de hiato de produto.

Mesmo se levando na devida conta que os preços no atacado estão avançando mais rapidamente do que há algumas semanas, seria leviano decretar que a inflação virá inexoravelmente a galope e que não sobrará saída ao Banco Central senão puxar outra vez pelos juros.

Há muita máquina parada no setor produtivo que pode voltar a ser acionada e a acumulação de caixa combinada com a maior facilidade no crédito pode acelerar os investimentos.

Enfim, esta é a melhor hora para que o governo passe sinais mais claros de que o empreendedor pode mergulhar na piscina sem medo e que não faltarão incentivos para o investimento.

O diabo é que, em fim de mandato, o governo perdeu os escrúpulos na condução da política fiscal. As despesas públicas estão disparando e os políticos se mostram inebriados com a gastança. É pouco provável que, com as eleições algumas curvas adiante, o governo volte à austeridade.

Mas um dia a conta chega.

Confira

Bolsa, lá e cá - Foi dito aqui ontem que a tentação de conter a entrada de capitais na Bolsa teria pouca eficácia no câmbio, pois os negócios com ações brasileiras são maiores nos Estados Unidos do que aqui.

Houve quem estranhasse o argumento, uma vez que o desvio de negócios para Nova York teria sim eficácia no câmbio, pois evitaria a entrada de dólares.

A objeção procede. O que se pode dizer é que concentrar as aplicações de investidores em ações de grandes empresas brasileiras (negociadas em Nova York) condenaria as small caps (empresas pequenas) ao acesso mais restrito a capitais baratos.