Título: Do lucro da cocaína ao pedágio baratinho
Autor: Pereira,Renée
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/09/2009, Economia, p. B3

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) comanda o processo de concessão e fiscalização das tarifas, mas a "mãe dos pedágios baratinhos" das rodovias leiloadas dois anos atrás, digamos assim, é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Apesar dessa maternidade explícita, há dois dias a reportagem do "Estado" procura a Casa Civil e pede que a ministra se manifeste sobre o reajuste dos pedágios reivindicado pelas empresas. A resposta, até ontem, foi o silêncio da pré-candidata Dilma.

Será um sinal aterrador se o governo ceder às empresas, todas maiores e vacinadas em negócios rodoviários. O contribuinte e usuário de estradas pedagiadas festejou as tarifas camaradas que Dilma anunciou ter conquistado depois de uma queda de braço em prol de menores Taxas Internas de Retorno. Combativo aliado dos pedágios caros, o governador Roberto Requião (PMDB-PR) fez coro com a "luta" da ministra e disse que considerava "imoral" o padrão dos contratos firmados no País. Disse mais: "No Brasil, só uma coisa pode dar mais lucro do que a verba da cocaína, o pedágio".

Foi nesse ambiente de espírito eleitoral e administrativo pró-usuários que a ministra festejou as tarifas conquistadas nos leilões das sete rodovias. Enquanto o governo não se manifestar, a evidência é de que não há nenhum atraso no cronograma das obras que não pudesse ter sido previsto na coluna de riscos das empresas.

Licenças ambientais sempre foram demoradas e as empresas do porte da BR-Vias e OHL sabiam onde estavam pisando. É preciso saber os detalhes dos lances oferecidos pelas empresas perdedoras para avaliar se as vencedoras não fizeram um preço generoso à custa da certeza de que, lá na frente, viria a negociação de um bom adivitivo.