Título: Tolerância zero
Autor: Barroso,José Manuel Durão
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/09/2009, Economia, p. B16
A crise que vivemos não é unicamente uma crise econômica. É a crise dos valores das nossas sociedades. Na reunião de cúpula do G-20, em Pittsburgh, esta semana, os líderes deverão tomar posição demonstrando nosso compromisso com uma economia mundial mais verde, mais ética, mais equitativa e equilibrada. Essa "nova globalização" exige governança global, baseada em valores humanos universais e refletindo a realidade da interdependência econômica.
O G-20 nos oferece a chance de dar nova forma à globalização, a chance de criar um modelo sustentável para substituir o que fracassou em razão do colapso dos mercados financeiros.
Acredito que a Europa muito poderá contribuir para a criação dessa nova arquitetura global. Durante 60 anos, fomos um laboratório de cooperação supranacional. O modelo europeu de sociedade luta para superar a destrutiva dicotomia de mercados não regulados, de um lado, ou, do outro, Estados superpoderosos.
Na Europa, antes de cada reunião do G-20, os líderes da União Europeia têm adotado uma posição de união. Temos procurado fortalecer a parceria, cimentando ainda mais as relações transatlânticas e os laços com as nações emergentes.
Não podemos e não devemos tentar parar a globalização. Ela criou riquezas e tirou grande parte do mundo da pobreza. Os acordos econômicos e a mudança cultural substituíram o isolacionismo e a desconfiança. As crises anteriores levaram a um protecionismo crescente - e, na pior das hipóteses, a conflitos que mataram milhões. Agora, na era da globalização, trabalhamos à mesma mesa, em lugar de nos defrontarmos no campo de batalha.
Há sinais de que, com corretas decisões políticas, poderemos alcançar uma recuperação gradativa em 2010. Mas a nobre retórica da mudança não deve retroceder, acenando para a manutenção das tendências atuais quando a pressão econômica diminuir. Para que a recuperação persista, o G-20 deve acelerar a reforma dos mercados, com tolerância zero para a volta a velhos métodos errados.
Os europeus estão horrorizados porque os bancos - alguns deles dependentes do dinheiro dos contribuintes - continuam a pagar bônus exorbitantes a seus executivos. Em Pittsburgh, a UE pedirá uma ação coordenada para acabar com tal prática, adotando medidas que já estão sendo tomadas na Europa e em outros lugares.
Essa não é uma caça às bruxas contra os banqueiros. Normas mais eficazes são do interesse de todo setor financeiro responsável, e instituições financeiras prudentes não devem ficar à mercê da imprudência dos concorrentes.
Às vésperas do G-20, a Comissão Europeia prepara a criação de um sistema europeu de supervisão financeira, que poderá inspirar um sistema global baseado em princípios semelhantes. Ao mesmo tempo, devemos nos manter firmes em nossa resolução, e levar adiante a política de estímulo econômico que impediu que a recessão degenerasse em depressão.
Nossa principal prioridade deve ser a defesa e a criação de empregos sustentados. Mas o G-20 também se comprometeu a coordenar estratégias de emergência quando chegar o momento, para que as finanças do governo recuperem o vigor.
Os membros do G-20 também terão de assumir a responsabilidade de buscar um novo equilíbrio para a expansão e a demanda global a fim de impedir a eclosão de crises.
Por outro lado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria exercer uma função de muito peso. Mantivemos a promessa feita na cúpula de Londres de pôr US$ 500 bilhões de novos recursos à disposição do FMI. A UE dará mais de um terço. A reunião de Pittsburgh aumentará ainda mais a função de vigilância do Fundo, que já havia sido fortalecida.
O G-20 também precisa avançar na questão da reforma das cotas e da representação do FMI. As maiores economias deveriam ter um voto proporcional às suas dimensões, e, ao mesmo tempo, assumir as responsabilidades decorrentes.
A Europa procurará por todos os meios um avanço significativo na luta contra as mudanças climáticas. Se não ganharmos a batalha, o progresso econômico não representará nada. Faltam menos de 80 dias para a conferência sobre a mudança do clima em Copenhague, em dezembro, e está na hora de trabalharmos com seriedade. O que preocupa é a falta de ambição nas negociações.
Para avançarmos, precisamos falar em números. Já apresentamos nossas ideias sobre as finanças do clima; os outros devem contribuir de maneira proporcional. Não é o momento de esconder o jogo. A mensagem da Europa ao mundo em desenvolvimento é que, se encarar com seriedade o corte das emissões, vamos ajudar. Não com um cheque em branco, mas com uma proposta justa.
Nossa mensagem ao mundo desenvolvido é que precisamos assumir um sério compromisso financeiro com o mundo em desenvolvimento, junto com nossos compromissos de mitigação. A equação é simples: se não houver dinheiro, não haverá acordos. Mas, se não houver ações, não haverá dinheiro! Precisamos criar um mercado global de carbono adequado, não como elemento opcional extra, mas como pré-requisito para transformar os compromissos em cortes de emissões.
O texto sobre a mesa tem 200 páginas, uma abundância de alternativas e uma selva de parênteses. Entretanto, se não resolvermos essa questão, correrá o risco de se tornar a mais longa nota suicida da história.
A mensagem que pretendo levar a meus colegas do G-20 é clara. Devemos inspirar o mundo com nossa visão de um futuro em que os mercados abertos e a liberdade de criar riqueza se baseiem em princípios ambientais éticos claros, respaldados por rigorosa supervisão das normas globais.
*José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, escreveu este artigo para a Global Viewpoint Network