Título: Uma nova dose de esperança
Autor: Cimieri , Fabiana; Thomé, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/09/2009, Vida&, p. A24
A epidemia do HIV persiste como um dos maiores desafios à saúde pública. Milhões padecem da doença, principalmente em países com recursos limitados. Mas é também um grande problema em países que possuem programas ativos de prevenção e tratamento. No Brasil, milhares morrem todos os anos e centenas de milhares dependem de remédios que podem causar efeitos colaterais. Precisamos de novos meios para conter a transmissão do vírus.
Há mais de 20 anos, a comunidade científica trabalha para desenvolver o que poderia ser a melhor arma contra a epidemia: uma vacina eficaz. O anúncio de ontem, com resultados de estudo feito em mais de 16 mil voluntários na Tailândia, que apontou para um modesto efeito protetor contra a infecção pelo HIV, obriga uma boa e cautelosa reflexão de todos.
Alguns cientistas criticam a ideia da vacina. Segundo eles, não seria possível desenvolvê-la porque o HIV conseguiria driblar as defesas do corpo. O resultado desse estudo sugere o contrário. Embora tenha protegido uma minoria, reforça o conceito de que a vacina é possível. Os resultados ampliam a esperança de um dia contarmos com uma vacina eficaz. Por outro lado, não há razão para euforia. A proteção foi muito modesta, aquém do necessário para usar a vacina em larga escala.
Também se baseia em um esquema complicado: são duas doses de um agente modificado geneticamente, seguidas de outras duas doses de uma proteína sintética. Esse esquema fica distante da praticidade de outras vacinas em uso, como a da febre amarela, que depende de só uma dose a cada dez anos. A nova vacina foi testada em uma região restrita, sem a certeza de que os resultados seriam semelhantes em outras populações com suas peculiaridades genéticas, sociais e étnicas.
Cautela nunca é demais. Não podemos passar a ideia de que resolvemos o problema ou afirmar um prazo em que se poderá receber a vacina. Os excessivamente otimistas podem afrouxar ou abandonar as medidas preventivas tradicionais, como o uso de camisinhas na relação sexual, e aumentar as chances de pegar a infecção. Nenhuma medida de prevenção nova, quer seja uma vacina ou outra qualquer, virá substituir as formas consagradas de evitar a transmissão do HIV. Tentar substituí-las é um convite ao fracasso no combate à epidemia.
Ainda temos várias tarefas para cumprir antes de ter uma vacina eficaz disponível para uso nas populações mais vulneráveis ao vírus. Mas, como todos que trabalham ou militam nessa área, espero que esse tempo não seja longo. É preciso ser otimista e batalhar, que um dia iremos atingir esse sucesso. Perseverar e investir na ciência dessa epidemia é a única maneira de abreviar o sofrimento da humanidade em função desse vírus com uma vacina eficaz.