Título: Para especialistas, vacina não exclui preservativo
Autor: Cimieri , Fabiana; Thomé, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/09/2009, Vida&, p. A24

Movimentos de aids destacam a importância da proteção na relação sexual; no País, uso da camisinha cai enquanto n.º de parceiros sobe

Especialistas e representantes de movimentos de aids no Brasil comemoram o avanço da vacina em pesquisa feita na Tailândia, mas destacam que ela não pode excluir o uso do preservativo. Pesquisa divulgada neste ano pelo Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual do brasileiro revelou que o número de relações eventuais vem crescendo enquanto o uso da camisinha, diminuindo.

"É preciso combinar a proteção do preservativo com a proteção biológica", afirmou o militante do Grupo Arco-Íris Claudio Nascimento. Para o estilista Carlos Tufvesson, ativista do movimento gay, a importância do uso da camisinha deveria ser intensificada agora. "Me preocupo em como os jovens receberão a notícia da vacina. Muitos deles acham que a aids é uma doença leve - eles não viram personalidades morrerem e as campanhas não falam sobre os efeitos colaterais dos medicamentos. Precisamos reforçar o uso do preservativo como forma de evitar o contágio."

De acordo com Cristina Possas, coordenadora da Unidade de Pesquisa do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, no Brasil, a vacina não seria adotada de forma isolada, mas sim como parte de uma estratégia para reduzir cada vez mais os números da doença - o uso do preservativo e as campanhas continuariam sendo fundamentais.

"Como o Brasil conseguiu um avanço muito grande no controle da epidemia, os jovens têm se sentido mais à vontade para não usar o preservativo", afirmou Cristina. De acordo com levantamento do ministério, o número de brasileiros que tiveram mais de cinco parceiros no último ano passou de 4% para 9,3% de 2004 a 2008. Nesse tipo de relação, o uso de preservativos caiu 5 pontos porcentuais: de 51,6% para 46,5%.

A pesquisa mostra, porém, que quanto menor a faixa etária, maior o uso do preservativo. Entre os jovens de 15 a 24 anos, 30,7% usam camisinha com parceiros fixos. Entre os que têm de 25 a 49 anos, o porcentual cai para 16,6%.

MAIS RECURSOS

Para Cristina, a pesquisa feita na Tailândia vai incentivar o ministério a destinar mais recursos no desenvolvimento de uma vacina e ajudar na definição dos projetos que receberão o restante dos R$ 25 milhões que serão investidos até 2012. Atualmente, 13 estudos recebem financiamento federal e uma nova chamada está em andamento. "Vamos focar mais nas pesquisas que estão alinhadas com as novas descobertas, tanto a da vacina quanto o achado dos anticorpos neutralizantes."

CRONOLOGIA

1981

Autoridades sanitárias dos EUA relatam a existência de casos de uma rara pneumonia entre homossexuais, comum apenas em pacientes com sistema imunológico deficiente

1983

São identificados os primeiros casos da doença no Brasil, em São Paulo. No mesmo ano, cientistas anunciam a descoberta do vírus causador da doença

1985

Governo brasileiro cria o Programa de DST/aids

1996

O Brasil torna-se o primeiro país a garantir o tratamento gratuito a todos os portadores

2001

Pela primeira vez, o Brasil quebra a patente de um remédio, o Nelfinavir

2003

Programa do governo recebe Prêmio Gates de Saúde Global

2008

A ONU estima que 33 milhões de pessoas vivam com o vírus no mundo. No Brasil, a estimativa é de 730 mil