Título: O resultado de São Paulo é muito decepcionante
Autor: Nunomura, Eduardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/03/2008, Vida &, p. A16

Claudio de Moura Castro: economista e mestre em educação. Para especialista, ensino nas capitais tem revelado resultados ruins porque as escolas da periferia são praças de guerra

Para o economista Claudio de Moura Castro, o problema da educação paulista - e também da brasileira - é que tem muita gente deixando de fazer o arroz com feijão. Ele sugere ver de perto as escolas que já estão fazendo o seu dever de casa, como unidades em Cardoso, Dolcinópolis, Pontes Gestal e General Cardoso. Castro confessa que não seria capaz de localizar esses municípios no mapa, mas faz questão de elogiá-los, porque obtiveram médias aceitas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que estabelece padrões educacionais de qualidade. O economista faz uma avaliação sobre o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), divulgado na semana passada. Alarmantes 71% dos alunos de ensino médio apresentaram resultado abaixo do básico em matemática. Castro diz não se surpreender com os baixos desempenhos dos alunos, mas esperava que o Estado apresentasse resultados bem melhores.

Veja os números do Saresp 2007

Se o senhor fosse pai de um jovem do ensino médio na escola pública paulista e soubesse dos péssimos resultados do Saresp, o que faria?

Se fosse um pai informado, tinha que estar pouco surpreso, porém zangado. Não há surpresa, isso é o Brasil. E São Paulo ainda é dos Estados que tem a melhor educação. Os outros estão piores. A única novidade é o descompasso entre matemática e português. O resultado de São Paulo é muito decepcionante.

E o que explicaria esse descompasso entre matemática e português?

Talvez porque houve um esforço para melhorar o português e não a matemática.

Os resultados ruins das avaliações vêm se acumulando. O Estado formou uma geração perdida?

Não se pode dizer que foi perdida. Essa gente vai se arrastando, aprendendo e melhorando ao longo da vida. Agora, uma grande oportunidade foi perdida. Mas não vamos particularizar São Paulo. O que há de imperdoável é o Estado de São Paulo não ser muito melhor.

Mas não seria de se esperar que também a cidade mais rica do Brasil oferecesse um bom ensino?

Vemos hoje uma situação genérica de escolas de periferia que não são escolas, mas praças de guerra. Conflagradas. Não é política de educação, é de pacificação. Nas grandes cidades brasileiras, elas puxam as avaliações para baixo numa forma dramática. A melhor capital é Curitiba, mas existem 440 municípios com educação melhor do que ela. Não temos que procurar a ruindade da escola ou a fragilidade de São Paulo. É uma deficiência global, das periferias brasileiras, que estão puxando tudo para baixo: mortalidade, criminalidade, educação e saúde. Eu diria que esse é o problema mais inadministrável do Brasil.

Quem mora na periferia não tem outra alternativa a não ser mandar seus filhos para a escola pública.

Parte do problema e da solução não está na educação. Não se pode querer que numa praça de guerra a escola seja uma ilha de paz. Alguns diretores geniais conseguem, mas na média é muito difícil. O pai realmente tem de ter uma grande zanga, um desapontamento de ver que as escolas de periferia são uma porcaria.

O ensino médio hoje tem sérios problemas, como distorção idade e série, repetência e evasão. Isso acaba refletindo na educação. E é um problema crescente.

Quando você fala do ensino fundamental, ele é muito ruim, mas sabemos como deveria ser. A idéia está certa, só que não sabemos fazer direito. Quando pega o ensino médio, a idéia não está certa. Não adianta querer fazer certo uma receita que está errada. Basicamente, temos um (ensino) médio para gênio, uma colcha de retalhos, uma montanha de informações que o jovem vai ter de aprender, mas a gente sabe que só os bons alunos das melhores privadas dão conta. Quando tenta ensinar demais, o aluno aprende de menos. Todos os países do mundo têm muitas alternativas para um aluno no ensino médio.

São Paulo foi governado pelo PSDB nos últimos 13 anos. Como deve ser avaliada a política de educação dos tucanos?

Não foi suficientemente mágica para superar uma crise e uma queda históricas, que vieram antes do governo ( Mário) Covas. O grande afundamento da educação foi anterior a ele. O PSDB não foi capaz de energicamente reverter isso.

E há a disputa política entre PSDB e PT, que em SP respinga em qualquer discussão sobre o ensino.

Com certeza. O governo do Fernando Henrique Cardoso foi refém de um bloqueio de que hoje o PT sente a falta. O PT (quando era oposição) foi burro, porque, se tivesse permitido uma série de reformas, o FHC teria pago o preço político das reformas. Ao vetar as reformas, ele herdou os problemas. Há uma dimensão de um botar a casca de banana no outro. E há problemas da própria educação que não foram resolvidos. A falta de governabilidade, o pouco que as autoridades mandam, isso não é PT, nem PSDB, é histórico.

Vamos discutir três políticas públicas que tiveram dificuldades de implementação em São Paulo. A primeira: a municipalização.

Não é algo que possa explicar o que está acontecendo. Quando você olha o ensino estadual ou municipal, uma hora um é melhor e o outro pior. Há um princípio razoável de que faz sentido que as escolas iniciais sejam municipais e as de ensino médio sejam estaduais. Caminhar nisso é uma boa idéia.

E a progressão continuada?

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que combina quanto o menino aprendeu e quanto andou no sistema, indica que São Paulo foi muito bem. De uma forma quase direta, mostra que a promoção automática ajudou. Mas daí a dizer que o que existe hoje é bom, não. A promoção sem mais nada é simplesmente menos ruim que a reprovação em massa. A solução não é nem uma, nem outra, mas fazer com que aprendam.

Os sindicatos dizem que o problema número um são os salários.

Não há nenhuma relação. Alguns Estados pagam muito e têm educação boa, outros têm ruim. Há Estados que pagam pouco e tem educação boa, como Minas. São Paulo paga razoavelmente e não está tão mal assim. A verdade é que o professor está muito mais preocupado com a qualidade de vida, com as condições de trabalho e a falta de ambiente. Professores que sejam razoáveis, porque há uma legislação que permite a eles faltar e não acontece nada. Essa é uma legislação trágica. Os secretários e diretores não podem fazer nada. Estão reféns de um sindicato obscurantista.

O senhor já disse que a formação dos professores é uma ¿catástrofe de ponta a ponta¿. Se a partir de hoje São Paulo formasse educadores de qualidade, em quanto tempo a educação entraria nos eixos?

Você tem de requalificá-lo. Mas não adianta dar um curso com teorias estratosféricas na graduação e requalificá-lo com mais teorias estratosféricas. O que a gente sabe: tem que usar o livro. Quando o professor aprende a usar o livro, o aluno aprende mais.

Voltando à avaliação do Saresp, qual é a parcela de responsabilidade dos governantes?

O governo paulista recebe o encargo de cuidar da educação. Tudo o que acontece na educação, por definição, ele é o responsável. O que a gente sabe é que em qualquer país os políticos têm radares e capturam as prioridades da sociedade. Educação de qualidade ainda não é prioridade. Se o menino passar oito anos na escola sem qualidade, não se dá muita conta. Agora, se chega em março e não tem vaga para os meninos, aí ferve, o pau canta.

Os pais erram ao enviar seus filhos às escolas e achar que elas vão ser responsáveis por tudo, inclusive ensinar a criança a amarrar um cadarço de tênis?

O pai tem que cobrar a escola a ensinar seu filho a ler, escrever e fazer conta. Se começar a exigir que ensine a amarrar sapatos, que é muito mais fácil, a escola vai fazer isso e deixar de lado o mais difícil.

Como a sociedade poderia participar mais desse processo?

Antes o pai dizia que a escola era ruim e o diretor dizia que era boa. Hoje tem o Prova Brasil. Se o pai leva o jornal com o resultado do exame, a coisa é diferente. Você está instrumentalizando a família a cobrar. É um instrumento que poucos países no mundo têm. Não adianta achar que vamos puxar a espada, dizer ¿Independência ou Morte¿ e agora vai.

Ou seja, não basta só noticiarmos que São Paulo foi mal no Saresp, como fez a imprensa?

Esse é um ponto importante, porque você vai ver alguns municípios muito acima da média da OCDE. Esse povo enfiado em Cardoso, que não sei onde fica, teve 245 pontos. Tupã também. Dolcinópolis, General Salgado, Pontes Gestal. Se estão acima da média, o que estão fazendo? Não é mágica, é o feijão com arroz direitinho. Não é possível que os outros também não possam fazer. Esse pessoal não foi formado na USP, as escolas não têm nada que as outras não tenham. Esse é o ponto que deve começar e acabar a matéria, para não ficar uma coisa negativa.

Quem é: Claudio Moura Castro

É economista, mestre em educação e presidente do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras

Embora sua formação seja em Economia, virou referência no campo educacional e já atuou em órgãos federais, como Ipea e Capes, e internacionais como o Banco Mundial

É autor de mais de 35 livros e é articulista da revista Veja