Título: Ensaio para a guerra em Anápolis
Autor: Godoy, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/03/2008, Nacional, p. A12
Na base a 140 km do DF, pilotos de caça enfrentam treinamento sofisticado para defender a capital federal
Os quatro passageiros do jato executivo LearJet-35 que, na quarta-feira, se aproximava de Brasília, nem perceberam, mas foram interceptados fora do alcance visual por um supersônico Mirage-2000C armado com canhões de 30 milímetros e mais dois mísseis Super-530 de 275 quilos, 3,80 metros - levando 45 quilos só de carga explosiva. Estava cumprindo uma de suas missões, a de proteger Brasília.
Às 14 horas a sirene de alerta soou no chalé de pronta resposta do 1 º Grupo de Defesa Aérea (GDA), da Base de Anápolis, a 140 quilômetros do Distrito Federal. Em 5 minutos um piloto, cujo treinamento é avaliado em US$ 3 milhões, disparava pela pista de 3 mil metros a bordo do caça cinzento de 6 milhões, um dos 12 comprados na França em 2005, usados e revisados, ao custo total de 80 milhões. O acionamento faz parte da rotina do GDA desde 1973, quando a unidade ainda se chamava 1ª Alada e operava novíssimos MirageIIIE/Br, desativados 33 anos depois, na noite de 31 de dezembro de 2005.
Na quarta-feira, a interceptação foi um ensaio. Embora o jato corporativo estivesse fora das regras - nada que não fosse corrigido por contato de rádio da torre de controle com o piloto - a oportunidade era boa. O caçador a bordo do supersônico só recebeu os dados da missão quando já estava no ar, com a turbina Snecma trovejando sobre o planalto goiano. Localizado e identificado o alvo, o oficial caçador estava de volta à base em pouco mais de 20 minutos. Em outro tanto o caça voltava ao hangar, preparado para sair outra vez.
O clima na reservada instalação militar do Planalto é o de tempo de guerra. A missão é defender o centro do poder, Brasília. E também 1,5 milhão de quilômetros quadrados até o complexo industrial de São Paulo. Nos abrigos de alerta, um ou dois Jaguares F-2000, o nome de código dos Mirage-2000C/B na FAB (C, monopostos; B de dois lugares), estão sempre armados e abastecidos. As construções ficam próximas da pista, para permitir decolagem em 5 minutos e suficientemente distantes para escapar das bombas de um eventual ataque contra as aeronaves em terra. Não há portas. O avião deve sair sem dificuldades. A missão é sempre de urgência. Com dois mísseis e canhões Defa de 30mm, ele voa além de 2,2 mil km por hora e cobre 1,4 mil quilômetros. Em média são feitas até 8 decolagens por dia. Quase todas operações dedicadas ao treinamento dos cerca de 30 pilotos que compõem o quadro do GDA. Mas há lançamentos reais, de identificação de aeronave intrusa, clandestina, sem plano de vôo e em atitude hostil. Embora os procedimentos da operação sejam padronizados, quando está engajado na tarefa de interceptação, 'um Jaguar ruge diferente', segundo o coronel José Sobrinho, piloto de uma das turmas dos anos 80. Com ele concorda o coronel Thomas Blower, o primeiro a quebrar a barreira do som no MirageIIIE/Br em Bordeaux, na França, em 1972. Não por acaso construiu sua casa na linha da cabeceira da pista de Anápolis. Os aviões passam sobre o seu telhado, com a turbina urrando sob as quase 7 toneladas de força para levar os 13 mil quilos do caça à altitude de combate. Depois de subir depressa para entrar no modo de busca determinado pelo Centro Integrado de Controle e Defesa do Espaço Aéreo (Cindacta-1), o caçador cuidará do planejamento da abordagem do alvo. O comandante do GDA, coronel Arnaldo Silva Lima Filho, e seu oficial de inteligência, capitão Renato Leite, são caçadores típicos. Arnaldo soma mais de 1.100 horas no velho MirageIII. Depois de 11 anos em Anápolis passou um período no Rio. E voltou para mais dois anos de vôo no novo modelo. Leite, 35 anos, trouxe um dos Mirage 2000C da França (8 já foram entregues, mais 4 chegarão até junho) voando da base de Orange para Dacar, no norte da África, depois para Natal e finalmente Anápolis. 'Foi a experiência da minha vida', resume. Todo o time está na faixa de 27 a 37 anos. São homens de notável forma física, preparados para suportar pressões superiores a 9 vezes a da gravidade. Para voar tomam doses extras de vitamina A e de potássio - a combinação melhora a acuidade visual e reduz a perda de sal. A identidade dos aviadores e as histórias das missões são dados reservados. Um oficial superior diz que não convém expor o pessoal que sabe de alguns dos procedimentos militares mais secretos do País. Menos ainda contar suas façanhas. Recentemente, sem que o episódio seja confirmado ou desmentido, um jato de grande porte apareceu nos radares. O passageiro seria o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para uma visita sigilosa ao amigo Lula. Legitimado, ganhou a escolta de dois caças.Os 12 Mirage 2000C/B, usados, cedidos pela França por I 60 milhões, mais I 15 milhões em suprimentos e I 5 milhões pelo treinamento técnico - 'é a melhor solução até a execução do programa FX-2, para escolha do novo caça de 5ª geração', diz o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. São interceptadores do mesmo tipo em uso na França, com alguma capacidade de ataque ao solo. Construídos a partir de 1985, têm sistemas híbridos, eletrônicos.
A base de Anápolis, com 1.600 homens e mulheres, uma das maiores da rede mantida pela Aeronáutica, abriga também o 2º/6º Grupo de Aviação, o Esquadrão Guardião. Os grandes jatos de inteligência são montados sobre a fuselagem do Emb-145, da Embraer. O R-99A é destinado ao trabalho de alerta avançado e coordenação do espaço aéreo. Leva sobre a fuselagem a antena sueca Erieye. Com ela pode controlar o movimento de aeronaves abaixo de 3 mil metros - portanto, fora dos radares, e organizar a atividade de aviões de combate. O modelo R-99B, de sensoriamento remoto é o principal recurso aerotransportado de inteligência da aviação militar brasileira. Segundo o comandante da unidade, tenente-coronel Rinaldo Nery Hora, 'os sistemas de imagens são 10 vezes melhores que os dos satélites comerciais, é possível rastrear alvos em terra e grampear comunicações'. Os recursos de imagens vão servir ao levantamento da área das hidrelétricas do Rio Madeira.
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