Título: OEA discute criação de grupo de vigilância fronteiriça
Autor: Nogueira, Rui
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2008, Internacional, p. A14
No encontro de amanhã em Washington, organização tentará pôr ponto final à crise entre Colômbia e Equador
Rui Nogueira
Depois de ter conseguido evitar que discursos incendiários espalhassem por toda a América do Sul o conflito envolvendo o Equador e a Colômbia, deflagrado no dia 1º de março, a Organização dos Estados Americanos (OEA) tenta amanhã, em Washington, pôr um ponto final naquela que foi uma das piores crises diplomáticas do continente. E o último capítulo do que, em alguns momentos, apesar da gravidade do problema, mais se assemelhou a uma novela pastelão, pode acontecer na reunião de constituição da União de Nações Sul-americanas (Unasul), em Cartagena, na Colômbia, no final deste mês.
Puxada pelo Brasil, uma das propostas-chave em discussão no encontro da OEA - que chegou a enviar seu secretário-geral, José Miguel Insulza, à fronteira entre Equador e Colômbia para fazer um relatório da situação - será a criação de um mecanismo permanente para fiscalizar as fronteiras entre Equador e Colômbia, uma comissão só militar ou militar e diplomática.
Na prática, como disse ao Estado uma fonte do Itamaraty, seria um grupo para ¿baixar a taxa de desconfiança mútua e permanente entre equatorianos e colombianos, algo que possa ser usado rapidamente para dizer o que aconteceu, e não deixar que, diante de um conflito, as partes apresentem versões contraditórias¿. A idéia é que esse mecanismo de vigilância trabalhe a partir de uma certeza: a de que o problema para os dois países é a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), não os Exércitos equatoriano e colombiano.
A reunião de Cartagena, prevista inicialmente para ocorrer em janeiro e adiada para os dias 26 e 27 deste mês, foi dada como perdida depois que tropas colombianas invadiram o território do Equador e mataram duas dezenas de guerrilheiros das Farc. Diante da guerra verbal, com os presidentes Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela) chamando Álvaro Uribe (Colômbia) de ¿canalha¿, ¿safado¿ e ¿criminoso¿, tornou-se impensável juntar à mesma mesa esses presidentes. Uribe irritou os dois e boa parte da comunidade sul-americana ao tentar justificar a violação do território equatoriano.
O Itamaraty, porém, depois que Correa, Chávez e Uribe se abraçaram na cúpula do Grupo do Rio, na República Dominicana, no final de fevereiro, insistiu que a reunião de Cartagena deveria ser mantida e usada para uma espécie de coroação da paz e enterro definitivo da crise. Correa já disse que vai e Chávez garantiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em telefonema na quarta-feira, que não vê problema em participar do encontro que tentará avançar na construção da Unasul. Em encontros separados com Uribe, Correa e Chávez, o chanceler Celso Amorim tem dito que os presidentes podem muito, mas não podem se livrar do fato de que são vizinhos e ninguém pode riscar ninguém do mapa.
As reuniões da OEA e de Cartagena vão ser embaladas por uma frenética participação diplomática brasileira. Além de Amorim, na OEA, esforçando-se para que a discussão se mantenha como assunto estritamente bilateral entre equatorianos e colombianos, isolando os arroubos de Chávez e do presidente americano, George W. Bush, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, estará em Washington, na terça, e Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula, nesta segunda, em Caracas.
Links Patrocinados