Título: Polarização esquerda e direita está superada
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/03/2008, Nacional, p. A12

PLATAFORMA: ¿A minha visão não é a de fazer muita coisa, mas fazer bem o que for feito¿

IDÉIA: ¿Pensei numa frente semelhante às frentes de salvação nacional que foram desenvolvidas na França¿

CENÁRIO: ¿Estamos num barco à deriva, procurando saídas para uma cidade em grandes dificuldades¿

Wilson Tosta

O mais recente pré-candidato a prefeito do Rio, deputado Fernando Gabeira (PV), não quer briga com ninguém. Mesmo com apoio do PSDB e do PPS, partidos que fazem dura oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele garante que, se eleito, manterá bom relacionamento com os governos federal e estadual, tendo como modelo a relação entre o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), e o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB). E, embora critique o que chama de ¿distanciamento¿ do prefeito Cesar Maia (DEM), que o teria levado a cometer erros de prioridade, Gabeira também não assume um discurso diretamente oposicionista no município. Prefere pregar a formação de uma ¿frente de salvação¿ da cidade - que considera em ¿decadência¿-, com ampla participação das forças políticas.

¿O tema central vai ser a cidade¿, diz o deputado sobre sua campanha, cuja pré-candidatura deverá ser referendada esta semana pelos partidos. E promete ¿cooperação total¿ com os governos Lula e Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Surpreendentemente, a defesa do meio ambiente não ocupa lugar central no discurso de campanha de Gabeira. Ele prefere falar de crescimento econômico, de crise na saúde e até de ¿elementos punitivos¿ à desordem urbana, algo inusitado para quem se notabilizou por temas como a descriminação das drogas, a legalização da prostituição e a oposição à chamada Lei do Abate, que permite à Aeronáutica derrubar aviões que entrem no Brasil sem autorização - prática de traficantes. No que depender de Gabeira, os assuntos ficarão longe da campanha de 2008, que será, promete, pouco convencional, como sempre, mas não deverá repetir a de 1986, quando tentou o governo sob o lema ¿É só querer¿ e promoveu o ¿Abraço à Lagoa¿. Em 2008, avisa, a internet será central. ¿Acho que no meu caso a polarização esquerda e direita está superada¿, diz.

O que o levou a ser candidato?

Olha, a primeira decisão, muito importante, foi a de não tratar apenas das questões nacional e internacional e me dedicar ao Rio, uma vez que a cidade está vivendo um período de decadência e de desânimo. Então, eu decidi construir uma frente de partidos para intervir nas eleições municipais e, através dessa intervenção, tentar mudar também, progressivamente, a relação das pessoas com a cidade.

O senhor diz que a cidade passa por um período de decadência. Dá para inferir que sua candidatura será focada em temas locais?

Não sei o que você entende por temas locais. O tema central vai ser a cidade do Rio de Janeiro. Vai ser realmente toda centrada no Rio e na possibilidade de constituir um grande movimento de recuperação da cidade. Porque a idéia é a de que um prefeito sozinho não pode realizar muito se não houver também um desejo de mudança e atitudes convergentes.

Que tipo de mudança?

A primeira, e fundamental, é encontrar o caminho do crescimento econômico. A segunda é contribuir com o Estado para reduzir a violência. A terceira é conter a desordem urbana, através de pedagogia e também de alguns elementos punitivos. E a quarta é resolver a crise da saúde no Rio de Janeiro.

Vai ser uma candidatura de oposição ao prefeito Cesar Maia?

Na verdade, quando constatei que a cidade estava vivendo uma crise e que essa crise vem continuada, pensei numa frente à semelhança das frentes de salvação nacional que foram desenvolvidas na França no período mais difícil, uma frente em que estivessem todos juntos. Não vou fazer oposição nem ao governo estadual, nem ao municipal, nem ao federal. Vou tentar propor uma saída para essa situação. O que não significa que eu não tenha uma visão crítica da gestão municipal.

Se considerarmos que Luiz Paulo Conde foi uma continuação de Cesar Maia, na prática o atual prefeito comanda a cidade desde 1993. Então, não dá para descolar a crise a que o senhor se referiu da passagem dele pela prefeitura, não?

É verdade, é verdade. E sobretudo essa crise se acentua nos últimos anos, com uma atitude dele que é de um certo distanciamento em relação às reclamações da população, o que foi entendido até como desrespeito.

Como analisa a última gestão do prefeito, que está se encerrando?

Olha, a gestão dele foi marcada por uma certa frouxidão no combate à desordem urbana, um processo que foi muito acentuado no último período. Além disso, as características do Cesar são muito especiais. Ele é uma pessoa que procura saber tudo e exercer um controle racional sobre os fatos. E o Rio está precisando de uma pessoa que saiba alguma coisa, não precisa saber tudo, mas que saiba, sobretudo, ouvir, entende?

Atribui esses supostos erros de prioridade de Cesar a seu estilo, ao distanciamento da população?

Voltamos atrás. Quando você tem uma noção clara do que quer fazer e acha que está dominando todo o quadro, você tende a ouvir pouco. O erro de prioridade, de um modo geral, é um erro de falta de diálogo.

O senhor diz que não vai fazer oposição a ninguém e quer fazer uma frente ampla. Mas, concretamente, o senhor saiu do PT, tem postura crítica em relação ao governo federal e tem apoio do PPS e do PSDB, os partidos de oposição. Isso não joga sua candidatura no campo da oposição ao governo Lula?

Não necessariamente. O processo democrático culminou recentemente com a vitória do PT. Já se havia alcançado a estabilidade econômica. E o Lula acrescentou a essa estabilidade econômica uma política social de grande envergadura. Mas as relações políticas continuam muito esgarçadas, muito decadentes. Eu entro nesse trabalho para completar, através dessa experiência, esse processo de mudança também.

E na relação prefeitura/governo federal, qual será a sua postura?

Cooperação total, cooperação total com o governo do Estado.

Evidentemente que a cooperação total inclui troca de opiniões também, não é?

Mas cooperação total com o governo e cooperação também com o governo federal.

O modelo de relação com o governo federal seria um pouco o do governador Sérgio Cabral?

Seria um modelo de relação parecido com o que existe com o Aécio e o Fernando Pimentel em Minas. Talvez não tenha, necessariamente, esse calor humano que existe entre os dois. Mas um modelo maduro de buscar solução para as questões do Rio, com o máximo de eficácia, passando por cima das divergências políticas e dos eventuais ressentimentos.

Com sua entrada, serão pelo menos quatro candidaturas de esquerda. Não tem muita gente nesse campo?

Olha, tenho ouvido muito essa pergunta e tenho a impressão de que ela remete muito ao século passado. Só se vêem as eleições do ponto de vista esquerda e direita. E as eleições americanas estão mostrando agora que essa polarização já está superada. Acho que no meu caso a polarização esquerda e direita está superada. Trabalho com vários temas que atingem pessoas que você eventualmente classifica de direita e pessoas que você eventualmente classifica de esquerda.

O senhor poderia reeditar um fato como o Abraço à Lagoa?

Não, não penso nisso, entende? De lá para cá, aconteceram coisas que a gente tem de observar. Uma delas é a existência da internet. Então hoje existe uma grande dimensão de trabalho na internet. ¿Ah, mas a internet só atinge a zona sul.¿ Não é verdade. Há quase 6 mil lan houses no Rio. Então, uma novidade, evidentemente, é que vamos fazer um esforço grande na internet. E a outra novidade é que vamos subir os morros para explicar o nosso programa.

O senhor se notabilizou por defender questões polêmicas, como a descriminação das drogas, e foi contra a Lei do Abate. Como vai enfrentar essas questões, quando seus adversários as levantarem?

Olha, o que vou enfrentar na campanha é o seguinte: todas as minhas posições foram defendidas no contexto do parlamento. Estamos num barco à deriva, procurando saídas para uma cidade em grandes dificuldades. Se nos concentrarmos na crítica ao trabalho parlamentar de cada um, vamos perder credibilidade com a população sobre a possibilidade de entendermos a crise e superá-la.

Esses anos todos, o prefeito Cesar Maia sempre centrou seu discurso na questão das obras. Como seria sua relação com essa questão?

A minha visão não é a de fazer muita coisa, mas fazer bem o que for feito. Acho que existe um tema de que já falei com o Cesar Maia inúmeras vezes e foi uma das razões pelas quais eu comecei também a pensar mais a questão do Rio de Janeiro, que é a recuperação do porto e do centro do Rio.

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