Título: Computador de Reyes detalha contatos com Chávez e Correa
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/03/2008, Internacional, p. A17

Laptop revela interesse das Farc em obter avanço político e traz registros sobre tráfico

Um dos elementos centrais da crise que na semana passada levou a América Latina à beira da guerra, o computador do ¿número 2¿ das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, é uma espécie de caixa-preta das atividades da guerrilha. Recolhido por militares colombianos no acampamento em que Reyes foi morto, há uma semana, no Equador, ele tem registros impressionantes dos bastidores das negociações para a libertação dos reféns, contatos das Farc com autoridades dos países vizinhos e discussões estratégicas da cúpula da guerrilha, além de informações sobre o comércio de drogas e armas.

Foi com base nos documentos desse laptop que Uribe acusou os presidentes venezuelano, Hugo Chávez, e equatoriano, Rafael Correa, de ligações com os rebeldes. Segundo o New York Times, ele também ajudou a polícia tailandesa a capturar em Bangcoc o maior traficante mundial de armas, o russo Victor Bout, que havia mais de um ano vinha fazendo negócios com as Farc.

Embora Chávez e Correa lancem dúvidas sobre a autenticidade de alguns desses registros, o fato é que a maior parte dos especialistas não vê indícios de que eles sejam falsos. Entre os arquivos secretos, estão, por exemplo, a cópia de uma carta do líder máximo das Farc, Manuel Marulanda a Chávez.

¿Senhor presidente, o senhor pode imaginar a alegria que despertou em nós sua proposta para aprovar o reconhecimento das Farc como força beligerante¿, agradece Marulanda. Num encontro com o guerrilheiro Iván Márquez, dias depois, seria a vez de Chávez dizer obrigado por um aporte financeiro que lhe foi feito pela guerrilha no passado. ¿(Chávez) agradeceu a solidariedade dos 100 milhões de pesos (cerca de US$ 50 mil) entregues pelas Farc quando ele estava preso (no início dos anos 90)¿, afirma Márquez e acrescenta ainda uma proposta do venezuelano: ¿Ele disse que vai nos dar uns estilingues meio velhos (na interpretação do governo colombiano, fuzis).¿

Entre os arquivos com dados inusitados está um relatório de Márquez, no qual o guerrilheiro relata que Chávez lhe disse ter vencido o referendo sobre a reforma constitucional de dezembro, apesar de a vitória ter sido ¿oficialmente¿ declarada à oposição. ¿Ele (Chávez) comentou para seus assessores que perdeu (oficialmente) o referendo porque dedicou, na campanha, muito tempo ao tema Colômbia¿, escreve Márquez. ¿A verdade - nos disse - é que ele ganhou o referendo por 5 mil votos, mas se tivesse insistido num triunfo tão estreito, poderia abrir espaço para uma situação de violência que desestabilizaria o seu governo.¿

Em outra declaração, Reyes dá a entender que as Farc estariam dispostas até a conversar com um futuro governo americano, caso o vencedor das eleições deste ano sejam os democratas - em especial, o senador Barack Obama. ¿Os gringos pediram ao ministro (de Defesa do Equador, Gustavo Larrea) que nos comunicasse seu interesse em conversar sobre vários temas¿, escreve Reyes, possivelmente se referindo a congressistas democratas, que recentemente manifestaram interesse em reunir-se com representantes das Farc. ¿(Ele disse que) Obama não apoiará o Plano Colômbia nem o TLC (Tratado de Livre Comércio). Nós lhe respondemos que nos interessam relações com todos os governos em igualdade de condições e, no caso dos EUA, seria necessário um pronunciamento público expressando o seu interesse em conversar com as Farc, dada a sua eterna guerra contra nós.¿

Apesar das acusações colombianas, o que fica evidente na leitura dos documentos é que Quito e Caracas estavam de fato mergulhados até o pescoço nas gestões humanitárias. Eles tiveram encontros secretos com líderes da guerrilha? Sim. Mas o centro das conversas, segundo os relatórios feitos pelos guerrilheiros para os seus superiores parece ter sido mesmo a possibilidade de libertação dos reféns. ¿(Larrea) Insiste em seu interesse de contribuir com a troca de prisioneiros, para o qual pede a libertação do filho do (professor Gustavo) Moncayo¿, escreve Reyes, depois do encontro secreto com o ministro equatoriano, no mês passado.

Em pelo menos duas correspondências os guerrilheiros mencionam que Chávez pediu pela libertação de Ingrid Betancourt. Num e-mail dizem que ele insistiu para que recebessem um enviado do presidente francês, Nicolás Sarkozy. ¿Sarkozy pediu a Chávez que perguntasse a Marulanda se poderia receber seu delegado¿, escreve Márquez em 23 de dezembro.

¿Não há dúvidas, por esses documentos, que a guerrilha está de fato preocupada em avançar no campo político interno e externo e sabe que a estratégia para conseguir isso é libertar prisioneiros e fazer contatos com outros países¿, diz o cientista político Carlos Medina, da Universidade Nacional da Colômbia que acaba de concluir um estudo sobre as Farc.

A preocupação com a opinião pública internacional é constante, a julgar pelas diversas discussões sobre a repercussão da libertação dos reféns e notícias dos maus-tratos aos quais eles são submetidos em cativeiro. ¿O que causa preocupação e pode ser muito perigoso para o equilíbrio da região são os benefícios e o apoio técnico, logístico e financeiro que a Venezuela e, em menor escala, o Equador ofereceram para os guerrilheiros, ainda que em troca dos prisioneiros¿, completa Medina.

Segundo Reyes, uma das ofertas feitas por Larrea seria a substituição de comandantes das forças de segurança equatorianas hostis às Farc. Num e-mail, Márquez citou uma cifra que o governo colombiano interpretou como dinheiro. Ele fala em ¿300¿, Bogotá diz que são US$ 300 milhões por causa de outro documento em que, um guerrilheiro que se identifica como ¿Jorge¿ escreve para o secretariado perguntando: ¿Quem, onde e quando recebemos esses dólares e onde guardaremos?¿ Em comunicações posteriores, Márquez relata uma discussão com Chávez sobre a logística para receber o dinheiro e fala de outras propostas de negócio feitas pelo venezuelano, sem explicar em detalhes do que se trata: ¿Outra oferta: a venda de gasolina na Colômbia ou na Venezuela. (...) Também a criação de uma empresa rentável para investir na Venezuela, com a possibilidade de conseguir contratos com o Estado.¿

Outro dado inquietante, segundo Medina, são as evidências de que tanto os dois países vizinhos quanto a guerrilha vêem sua aliança como uma estratégia para desestabilizar o governo Uribe. Nas conversas de bastidores descritas pelos guerrilheiros, autoridades dos dois países descrevem o presidente colombiano como lacaio dos EUA. ¿As autoridades do Equador têm claro que Uribe representa os interesses da Casa Branca, as multinacionais e as oligarquias e o consideram um perigo para a região¿, escreveu Reyes em 18 de janeiro.