Título: O drama dos brasileiros ilegais
Autor: Sant'Anna, Lourival; Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/03/2008, Metropole, p. 1

Temor de ser pego pela imigração e tentativas de regularizar papéis movem dia-a-dia em cidades européias

O nome da cidade tanto faz. Pode ser Madri, Lyon, Genebra ou Marselha. O que há em comum é a situação em que vivem os brasileiros ilegais na Europa. O temor de ser pego pela imigração e deportado não é tão grande quanto os dois sonhos que movem os sem-documento: ganhar dinheiro e regularizar a sua situação.

Alheios aos debates acalorados na campanha eleitoral sobre a sua presença indesejada no país e à deportação em massa de seus compatriotas no Aeroporto de Barajas, em Madri, imigrantes ilegais brasileiros seguem a vida na Espanha. ¿Vim como todo brasileiro, com a esperança de ganhar dinheiro aqui¿, diz a goiana Viviane Miranda de Moraes, que chegou à Espanha no dia 1º de março de 2005, depois de se formar em Letras (Português e Inglês) em Goiânia. ¿Não valeu a pena de jeito nenhum. O preço foi alto demais. Por tudo que passei aqui, não voltaria nunca mais .¿

Pouco depois de chegar, Viviane conta que ficou grávida do espanhol Manuel Prado Docampo, dono de uma loja de carros em Ourense, cidade localizada a seis horas de Madri, onde trabalha numa cafeteria. Ela veio ter o filho no Brasil e, quando voltou, seu namorado estava com a irmã dela, que trabalha ¿em um clube¿, e não quis reconhecer a paternidade.

Hoje com 32 anos, Viviane diz que já provou a paternidade do filho e está à espera da sentença da Justiça. ¿Ele vai ter de colocar o sobrenome no meu filho e pagar pensão. Com isso, vou me legalizar na Espanha¿, espera ela, que reclama do custo de vida no país, para uma mãe solteira: ¿Pago 600 para uma babá brasileira tomar conta do meu filho.¿

DISTÂNCIA DA FAMÍLIA

Viviane sabe que suas agruras são um caso excepcional: ¿Minha irmã, que não tem filho, já comprou casa e carro no Brasil.¿ Mas diz que os imigrantes sofrem muito pela distância da família. Ela está voltando pela terceira vez ao País. Não sabe das deportações em massa de brasileiros, mas não se assusta: ¿Se está dentro da lei, o turista não tem problema para entrar¿, garante, enumerando de cor as exigências da polícia de imigração: ¿ 800, cartão de turista, reserva de hotel. É a lei. Eles não podem fazer nada.¿

Mineiro de Ipatinga, Eliel Carlos da Silva, de 29 anos, também vive a esperança de regularizar sua situação na Espanha. O dono da empresa onde ele trabalha como soldador já concordou em dar início aos trâmites para o contrato, que abre caminho para um pedido de residência. O patrão também concordou em convidar sua mulher para vir trabalhar com limpeza em sua firma. Assim, ele tenta preparar os papéis para a vinda da mulher e dos três filhos.

Eliel conta que, com o salário de 800 a 900, não dá para guardar dinheiro. Só o aluguel do apartamento custa 600, que ele divide com outras três pessoas. ¿Sempre pagam pouco a quem não tem papéis. Querem tirar proveito¿, diz ele. ¿Aqui, a vida é de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Se sair para uma gandaia, já aperta¿, sorri Eliel.

Todos os domingos pela noite, o bar Tacos no centro de Genebra se transforma em uma espécie de centro para toda a comunidade brasileira na cidade. ¿Aqui, o sonho de todos é conseguir sair da condição de ilegalidade¿, afirmou Cintia Silvestrini, imigrante de 24 anos de Hortolândia (SP) e uma das poucas brasileiras no local com seus papéis regularizados.

MORADIA

Sem apartamento em seu próprio nome, telefone ou mesmo conta bancária, muitos imigrantes ilegais passam por situações complicadas para sobreviver na Europa. ¿O mais complicado é encontrar onde morar¿, diz um brasileiro que vive em Lyon, na França. Originário do Ceará, ele pede para não ter seu nome revelado para evitar problemas com as autoridades locais: ¿O dia-a-dia é de circo. Mas dá para se acostumar.¿

Pelas leis da maioria dos países europeus, um aluguel somente pode ser assinado por imigrantes legais. A solução para muitos é tentar encontrar alguém que possa assinar em seu nome e torcer para que nenhuma fiscalização seja feita. Poucos são os bancos que aceitam contas de ilegais, ainda que alguns comecem a perceber que essa população pode ser interessante, já que gastam pouco e, para não ter problemas com a polícia, pagam tudo em dia.

Os malabarismos para sobreviver como ilegal na Europa incluem até mesmo casamentos forjados. Em Marselha, no sul da França, Milton (que não quer também divulgar seu sobrenome) conta que chegou a ter visto de residência depois de se casar com uma francesa. ¿Paguei 15 mil a ela pelo acordo¿, disse. O problema é que, alguns meses depois, a francesa obrigou Milton a cumprir seu papel de marido. Como o brasileiro tinha sua própria noiva e até filhos, não aceitou.

A francesa então o ameaçou, alegando que pediria o divórcio. ¿Como não tinha como fazer qualquer pressão, o divórcio foi dado e perdi os 15 mil que havia pago¿, relevou. Hoje, vive de forma ilegal ainda na França, trabalhando como lavador de pratos em um restaurante e como ajudante de obras.

MALABARISMOS

Para a comunidade de ilegais, os malabarismos também saem caro. Para tentar escapar de qualquer controle da polícia, a regra é não causar brigas em bares e sempre andar com a passagem de retorno no bolso, caso a polícia faça uma blitz.

O problema é que, para cada vez que um imigrante quer visitar sua família no Brasil, precisa comprar três passagens. Uma de ida ao Brasil. Outra de retorno para a Europa e uma terceira falsa, para mostrar aos policiais que de fato tem data a volta para o Brasil. Algumas agências de turismo se aproveitam da situação dos ilegais e oferecem as passagens falsas, como é o caso da Monde Voyage, no centro de Genebra. Procurada, a agência se recusou a comentar suas vendas.

Em muitas cidades, um dos poucos lugares de encontro que são considerados seguros são as sedes da Igreja Universal do Reino de Deus. Com cultos em português e até assistência psicológica para aqueles que se sentem sozinhos, a Igreja consegue ampliar o número de fiéis graças ao desespero de alguns imigrantes.

Cintia, que trabalha na casa de diplomatas brasileiros, admite: quem tem visto ou papel regularizado tem até mesmo outro status dentro da comunidade brasileira. ¿Todos querem estabilidade. É normal¿, disse.

José Carlos, de 36 anos, vive perto da sede do controle de imigração de Genebra. Mas suas perspectivas de conseguir um visto de residência são distantes, apesar de já estar na Suíça há nove anos. Mesmo assim, não perde o bom humor: ¿O que é viver nessa situação comparado à violência, incertezas e desilusões da favela?¿

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