Título: EUA mantêm posição polêmica sobre fronteiras
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/03/2008, Internacional, p. A10

Embaixador no País diz que combate ao terror é prioritário e elogia proposta de Conselho de Defesa Sul-Americano

Os Estados Unidos reconhecem a importância de se manter a integridade das fronteiras dos países sul-americanos, mas elas não podem servir como escudo para organizações terroristas como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A advertência é do embaixador dos EUA no País, Clifford Sobel. Em entrevista por telefone ao Estado, Sobel - que está em Nova York - repetiu os argumentos expostos pela secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, em seu encontro na semana passada em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

¿Essa posição sobre as fronteiras não é dos EUA, e sim da ONU, que proíbe os países de usarem seu território para atacar os outros. A ONU é muito clara nesse assunto¿, disse Sobel.

A argumentação americana voltou a ser criticada ontem pelo chanceler Celso Amorim, que estava em Washington participando da reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). Amorim disse que os princípios do direito internacional têm de ser respeitados (ler ao lado).

Sobel, porém, não vê na polêmica uma fonte de tensão entre os dois países. ¿Respeitamos as posições brasileiras, assim como esperamos que o Brasil respeite as nossas¿, afirmou o embaixador. ¿O que tem de ficar claro, conforme enfatizou a secretária Condoleezza, é que estamos contentes com a liderança do Brasil no processo de estabilização da situação. A OEA é o fórum adequado para cuidar do assunto¿, acrescentou.

Sobel assegura que os EUA não se opõem à proposta brasileira de se criar um Conselho de Defesa Sul-Americano, que desenvolveria políticas conjuntas de defesa e atuaria em situações de crise, como a que envolveu Equador e Colômbia. ¿Respeitamos países que decidem entre eles como querem cooperar e trabalhar juntos, seja no comércio, questões políticas ou militares¿, disse Sobel. ¿Acho isso muito positivo. Mas cada país terá de decidir como participará dessa organização. Os EUA não querem ser a polícia do mundo.¿

Sobel não admite que tenha havido mudança da diplomacia americana em relação à América Latina, que após os atentados de 11 de Setembro entrou num período de hibernação. A reaproximação se deu há poucos meses, marcada por um diálogo mais amplo com líderes regionais, como Lula. ¿O interesse dos EUA pela América Latina não é novo¿, afirmou o embaixador. ¿Acho que agora está sendo muito mais analisado, uma vez que o Brasil está assumindo um papel de liderança regional e internacional.¿

POLÍTICA RACIAL

Sobel destacou outro ponto da visita de Condoleezza: o acordo sobre discriminação racial assinado com o ministro de Igualdade Racial, Edson Santos. ¿Mais do que apenas um acordo, foi a criação de um grupo de trabalho, que contará com representantes dos dois governos, acadêmicos e integrantes do setor privado. O acordo abrirá portas para as minorias no Brasil, criará novas oportunidades. Os dois países são muito parecidos em relação às nossas heranças africanas. ¿