Título: China enfrenta protestos pelo Tibete
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/03/2008, Internacional, p. A19
Centenas de monges budistas desafiam PC e marcham para Llasa no aniversário de levante contra domínio chinês
A menos de cinco meses dos Jogos Olímpicos, o governo de Pequim enfrenta uma onda de manifestações dentro e fora da China contra sua presença no Tibete. Na terça-feira, entre 300 e 600 monges budistas desafiaram o Partido Comunista e realizaram uma marcha do mosteiro Drepung em direção à capital da região, Llasa, para marcar o 49º aniversário do fracassado levante contra o domínio chinês, ocorrido em 1959. Segundo a emissora de rádio Free Asia, o protesto foi reprimido com gás lacrimogêneo.
Foi a maior manifestação do tipo realizada desde 1989, quando as autoridades impuseram a Lei Marcial durante 13 meses para controlar os protestos - na época, o secretário-geral do Partido Comunista no Tibete era o atual presidente da China, Hu Jintao. No domingo, durante um show em Xangai, a cantora Bjork gritou ¿Tibete, Tibete¿, depois de cantar a música Declare Independência, em outro desafio às restrições impostas pelo governo de Pequim.
Ao mesmo tempo em que os monges protestavam em Llasa, um grupo de tibetanos exilados na Índia iniciava uma marcha rumo ao Tibete, programada para terminar durante a Olimpíada, em agosto. No entanto, o governo indiano declarou a marcha ilegal e, segundo relatos de organizadores e testemunhas, mais de cem participantes da marcha foram detidos ontem. A cidade indiana de Dharamsala tornou-se a capital dos tibetanos no exílio depois que o dalai-lama fugiu da região, em 1959.
Kate Saunders, da Campanha Internacional pelo Tibete, disse ao Estado que as manifestações devem se intensificar com a aproximação da Olimpíada. ¿Diferentes grupos ao redor do mundo vêem este momento como a primeira chance em muitos anos de ter a China no centro internacional das atenções e poder pressionar o governo por mudanças¿, declarou em entrevista telefônica de Londres. A entidade defende um maior grau de autonomia para o Tibete, sob a soberania chinesa. Para Kate, os protestos não virão só de tibetanos, mas de movimentos relacionados a diversas questões, do combate à pena de morte até a crítica das relações chinesas com o Sudão.
Há cerca de duas semanas, o diretor americano Steven Spielberg renunciou ao cargo de consultor artístico dos shows de abertura e encerramento da Olimpíada em protesto contra o que ele vê como omissão do governo chinês em relação ao massacre étnico em Darfur, no Sudão. A China é o principal parceiro comercial e maior investidor estrangeiro no país africano, para o qual vende armas em troca de petróleo.
Kate Saunders disse não ter informações sobre a situação dos monges que participaram do protesto em Llasa. ¿Não sabemos quantos foram presos nem se continuam na prisão.¿
Antes da manifestação de centenas de monges, um pequeno grupo de cerca de 10 deles havia saído às ruas na segunda-feira. No dia seguinte, o porta-voz da chancelaria, Qin Gang, confirmou o protesto: ¿Na tarde de ontem alguns monges em Llasa, incentivados por um punhado de pessoas, realizaram atividades ilegais que ameaçam a estabilidade social.¿ Qin disse que eles foram tratados de ¿acordo com a lei¿, sem dar detalhes.
Temendo que ativistas protestem também quando a tocha olímpica for levada para o alto do Everest, autoridades chinesas estão barrando o acesso de montanhistas a seu lado do monte, que fica na fronteira entre o Tibete e o Nepal.
A estabilidade social e a unidade territorial são obsessões do governo de Pequim. Além do Tibete, há movimentos separatistas na província muçulmana de Xinjiang, a maior da China, onde o governo chinês afirma existirem grupos terroristas.
Pouco mais de 8% da população chinesa é formada por um conjunto de 55 minorias étnicas, muitas das quais têm língua, religião e costumes próprios. Apesar de minoritárias, essas etnias ocupam 60% do território do país. São áreas montanhosas e desérticas, mas ricas em recursos naturais, como gás em Xinjiang, água no Tibete e carvão na Mongólia Interior. Qualquer movimento separatista em uma dessas regiões pode estimular protestos semelhantes em outras - um pesadelo para o Partido Comunista.
O chanceler chinês, Yang Jiechi, criticou ontem a politização da Olimpíada. ¿Não é a comunidade internacional que politiza os Jogos Olímpicos¿, afirmou. ¿É um pequeno número de indivíduos anti-China, com conceitos preconcebidos contra a China.¿ O porta-voz Qin sustentou que a situação econômica e social no Tibete melhorou depois do exílio do dalai-lama. ¿A única coisa destruída [NO TIBETE]foi o regime cruel e de obscura servidão, que o grupo do dalai quer restaurar¿, afirmou.