Título: O pós-lulismo
Autor: Torquato, Gaudêncio
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/03/2008, Espaço Aberto, p. A2

A previsível decisão de que o PT autorizará alianças com o PSDB para as eleições municipais de outubro não deixa de ser matreira operação de engenharia política. Ajusta-se à boa lição do samurai Miyamoto Musashi, autor de Um Livro de Cinco Anéis, breve tratado sobre a luta com espadas: ¿Na estratégia, é importante ver coisas distantes como se estivessem próximas e ter uma visão distanciada das coisas próximas.¿ O acordo entre os dois partidos para eleger Marcio Lacerda (PSB) prefeito de Belo Horizonte (BH) é uma coisa próxima vista a grande distância. Trata-se, na verdade, de uma composição com projeção do futuro. A aliança na capital do segundo maior colégio eleitoral do País, Minas Gerais, abrirá novas perspectivas na articulação política, tornando contundente o embate partidário, propiciando rearranjo de forças e redimensionando o papel de São Paulo como principal patrocinador do campeonato eleitoral de 2010.

O governador Aécio Neves movimenta-se há muito tempo para colocar Minas no centro do jogo. Age convicto de que é preciso dar um basta à hegemonia paulista em matéria de nomes para a Presidência da República. Oito anos de FHC e oito de Lula bastariam para fechar, temporariamente, o ciclo paulista e resgatar o legado mineiro. Esse é o discurso que expressa quando recorda a condição de reserva a que Minas Gerais foi levada com a morte de Tancredo. Os acenos para a escalação mineira à posição de titular vêm de todos os lados. Lula faz ver ao PT que deseja a aliança entre petistas e tucanos em outras cidades. O prefeito de BH, o petista Fernando Pimentel, prega o fim do antagonismo entre eles e não esconde o entusiasmo com Aécio, vendo nele ¿um candidato do nosso campo¿ e ¿excelente presidente do Brasil¿. O governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), distingue identidades programáticas entre os dois partidos, afirmando ser ¿um erro tentar medir o Brasil pela regra de São Paulo¿.

Não há como tirar a razão de petistas que argumentam com o parentesco entre PSDB e PT. Extravagante, na teia de contra-sensos de nossa cultura política, é a união entre tucanos e demos (ex-pefelistas). A aliança, em 2004, entre PSDB e o então PFL em torno de José Serra como candidato a prefeito de São Paulo foi conseguida a fórceps. Serra quase não engoliu Kassab como vice. O acordo seguinte, em 2006, em torno do nome da candidatura Alckmin à Presidência da República não se respaldou em idéias. A geléia doutrinária acabou vingando. Como os três macaquinhos, os aliados fecharam os olhos, a boca e os ouvidos. Convenhamos, o ideário defendido pelos liberais (ou abandonaram a marca?) difere da visão social-democrata dos tucanos (e hoje dos petistas), cujo documento Os desafios do Brasil e do PSDB assim reza: ¿O primado da sociedade, o prestigiamento da iniciativa privada - individual e social - não se confunde com a tese neoliberal do retraimento do Estado ou do Estado mínimo nem com a tese do Estado máximo.¿ O Estado mínimo era a luz do ex-PFL. O PT e o PSDB, portanto, são mais próximos.

Portanto, a dificuldade para firmar compromissos com o PT não se ampara em ideologia. A questão é outra. O petismo perdeu credibilidade. Passou a enxergar apenas o próprio umbigo. Os próprios aliados o olham com desconfiança. Não é de cumprir contratos, acordos, alianças, a não ser as que mais lhes convêm. Tornou-se centro de denúncias. Cindiu-se em alas que se confrontam. Esnobe, continua a se considerar o centro da política. Alianças pontuais com o PSDB, como as que existem em 26 cidades paulistas, são vistas com reservas. Mas Lula tem interesse em quebrar resistências internas. Teme não viabilizar a candidatura da petista ¿mãe do PAC¿, Dilma Rousseff. Incentiva Aécio Neves a abrir espaço em partidos da base governista e trabalhar por uma eventual candidatura à Presidência. Simpatiza com a idéia de ver Ciro Gomes junto do mineiro. Os ensaios político-eleitorais, encenados pelo neto de Tancredo com a simpatia do presidente, têm um alvo: o bastião do tucanato paulista, sob o império do ex-presidente Fernando Henrique e do governador José Serra. A estratégia conta com o discreto apoio do ex-presidente do PSDB senador Tasso Jereissati. A idéia é descentralizar o poder concentrado em São Paulo, dando uma feição mais horizontal às decisões e arrumando um ideário consoante com a realidade.

Nessa direção, o ciclo pós-Lula abriria espaço para a implantação de uma nova concepção, amparada na quebra de antagonismos e em visão mais propositiva e menos dissonante sobre o pacto nacional. Os entes partidários, transformados em escoadouros mais largos das demandas sociais, substituiriam o plano da ¿conquista do poder pelo poder¿ pela visão magnânima da integração de propósitos, respeitando-se, evidentemente, convicções doutrinárias e abordagens diferenciadas sobre questões nacionais. Tal moldura implicaria menor personalização do poder e impulso ao ¿cidadanismo¿, desenvolvido por grupos cívicos de pressão e movimentos em defesa do interesse público. Tipos personalistas e caricaturas populistas, que repartem a sociedade em compartimentos extremos e radicais, dariam lugar a perfis menos exuberantes. Sem entrar no mérito de competências pessoais, vejamos como três grandes atores se inserem nessa abordagem. Lula, como é óbvio, seria o último dos moicanos. Com seu imenso poder de atrair e repelir, fecharia a era. José Serra representa a fricção do outro lado. Eleito presidente, em contraponto ao lulo-petismo, deixaria a porta aberta para a continuidade do ciclo. Aécio Neves, por seu lado, seria a ração balanceada e, como tal, agregaria forças para ser o eixo-mor da nova vertente.

Sob essa nova ordem, seriam plantadas as sementes de reformas em profundidade e nenhum governante, nem mesmo um Luiz Inácio de cabelos mais brancos, voltaria a fazer as coisas d¿antigamente. Este, porém, é o busílis. O ¿pós-Lula¿ anunciado por Aécio cria zumbido nos tímpanos presidenciais. Por isso se diz que Lula confia desconfiando no governador mineiro.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político

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