Título: Eduardo Cunha e seu método toma-lá-dá-cá
Autor: Filho, Expedito
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/2008, Nacional, p. A10
Peemedebista controla voto de 22 deputados e fatura cargos no governo
Expedito Filho, BRASÍLIA
O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) tornou-se um dos mais poderosos parlamentares da base governista e um dos mais influentes da Câmara. É um dos poucos que lideram uma bancada informal, composta de 22 deputados do PMDB e até de outros partidos da base, como o PSC.
Cunha passou a ser amigo íntimo do líder do partido, Henrique Alves (RN), assumiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e abocanhou a presidência de Furnas Centrais Elétricas, uma das estatais mais cobiçadas pelos políticos. Ali, ele colocou o ex-prefeito do Rio de Janeiro Luiz Paulo Conde. Há dois anos, a estatal foi alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de financiamento ilegal de políticos.
O deputado é o verdadeiro sucessor de Anthony Garotinho, de quem herdou os métodos de fazer política, embora não tenha a mesma popularidade. Além da indicação de Conde para a presidência de Furnas, Cunha apadrinhou as indicações do vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal (CEF), Carlos Antônio de Brito, e do diretor da Área Internacional da Petrobrás, Jorge Luiz Zelada. Brito era uma indicação do deputado Tadeu Felipelli (PMDB-DF), e Zelada, de Fernando Diniz (PMDB-MG). Em troca do apoio dos dois parlamentares a Conde, o deputado fluminense sustentou as indicações com o peso dos 22 votos que lidera na base governista.
Movimentando-se exclusivamente nos bastidores, Cunha usa postos em comissões e relatorias para negociar a aprovação de matérias de interesse do Planalto em troca do atendimento de reivindicações que ele encaminha ao governo. Ele e seu grupo nunca votaram contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas atrasaram a entrega de relatórios e, em alguns casos, até ameaçam fazer alterações em projetos contrários aos desejos do poder central.
O toma-lá-dá-cá tem funcionado. Com a colaboração do deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), seu fiel escudeiro, Cunha trocou um simples parecer pela constitucionalidade da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) na CCJ pela indicação de Conde. Picciani foi guindado à presidência da CCJ por sugestão de Cunha. Em troca, tornou o padrinho relator da CPMF. Em vez de confirmar a constitucionalidade ou não da contribuição, Cunha resolveu discuti-la no mérito. Resultado: o imposto do cheque só foi declarado constitucional depois que a indicação de Furnas ficou sacramentada.
Agora, Cunha assumiu o comando da CCJ e Picciani virou um fenômeno parlamentar, ao assumir as duas relatorias mais importantes da atual legislatura. Ele é o relator da comissão que analisa mudanças na tramitação das medidas provisórias e da que avalia a emenda da reforma tributária. Por trás de tanto poder, está o suporte invisível de Cunha.
A estrada que levou o deputado fluminense ao comando do fisiologismo federal foi longa. Ele surgiu no governo do ex-presidente Fernando Collor, indicado para a presidência da antiga Telerj. Era um técnico, do tipo que os políticos costumam subestimar. ¿Eu já tinha uma boa formação executiva e instinto político¿, afirma o deputado. Após o impeachment de Collor, ele tentou voltar à Telerj no governo Fernando Henrique Cardoso, mas seu nome acabou vetado pelo então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Eduardo Jorge Caldas Pereira.
Mais tarde, durante as privatizações das teles, ele se tornou um dos suspeitos de estar por trás das escutas telefônicas no BNDES, nas quais ficou célebre uma frase do ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio: ¿Estamos no limite da irresponsabilidade.¿ Mas seu nome acabou não sendo citado em nenhum dos processos que apuravam a origem do grampo. O governo FHC suspeitou de Cunha, mas não tinha elementos para acusá-lo.
Ele também passou invisível pela CPI dos Correios, embora o doleiro Lúcio Funaro tenha sido apontado como homem que pagava suas contas no Hotel Blue Tree, em Brasília. ¿Ele não pagava. Era um contrato de aluguel¿, defende-se, apesar dos indícios coletados pela CPI de que Funaro teria cedido o apartamento sem ônus.
Com Garotinho, Cunha aprofundou o know-how do toma-lá-dá-cá . Tornou-se homem-chave do esquema. Ele tinha influência na Assembléia Legislativa fluminense, onde Jorge Picciani, pai de Leonardo, já era uma das raposas da política local. No esquema Garotinho, era homem de confiança do chefe e mandava na Companhia de Água e Abastecimento (Cedae).
Com o ocaso político do cacique fluminense, Cunha ganhou espaço. Reuniu a turma de Garotinho e assumiu a liderança no lugar do chefe. ¿Não faço liderança, mas apenas a coordenação. O esquema Garotinho acabou e a minha política não tem nada a ver com a dele¿, afirma. Engajou-se na campanha de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara e trabalhou duro para ganhar postos no Congresso.
Depois, sedimentou a amizade com Henrique Alves em uma viagem a Nova York. Ali, os dois iniciaram uma relação política que permitiu a Cunha ganhar poder e influência.
Apossou-se da CCJ, o coração da Câmara, responsável pela confirmação da legalidade e constitucionalidade das matérias que ali tramitam. O herdeiro de Garotinho pôs seus métodos a serviço de todos que o procuraram e é hoje um dos deputados que mais distribuem favores aos colegas. Mas, ainda assim, Cunha nega ser o patrono do fisiologismo.
¿Estão exagerando. Eu só indiquei o Luiz Paulo Conde para Furnas. Os outros foram indicados pelas bancadas e eu apenas apoiei¿, minimiza.
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