Título: Os limites do Fed
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2008, Notas e Informações, p. A3

A crise do sistema financeiro, até agora confinada no mundo rico, já poderia estar tendo efeitos no desempenho da economia, não fosse a intervenção do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e a cooperação ocasional das autoridades monetárias da Europa, do Canadá e do Japão. Sem esse socorro, uma rápida reação em cadeia teria sido inevitável - e o resultado seria a temida quebradeira no setor financeiro, com violenta repercussão no consumo, na produção e no emprego. Os efeitos com certeza ultrapassariam as fronteiras dos Estados Unidos. Mas a turbulência, embora sujeita a algum controle, não terminou, ninguém sabe quando terminará e os bancos centrais serão provavelmente incapazes de eliminá-la. As quedas de quarta-feira nas bolsas de todo o mundo, incluída a brasileira, mostram que é esse o quadro que o mercado está contemplando.

Durou pouco a celebração do novo corte dos juros básicos americanos, de 3% para 2,25%, anunciado na terça-feira pelo Fed. O banco central dos Estados Unidos, mais uma vez, fez tudo o que podia fazer, afrouxando a política monetária e dando mais fôlego às instituições financeiras. No domingo, numa intervenção espetaculosa, havia baixado o custo do redesconto e ao mesmo tempo garantido a compra do Bear Stearns pelo JP Morgan. A quebra do Bear Stearns, o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, poderia ter causado - esta é a justificativa apontada para a ação do Fed - um impacto violento em todo o sistema financeiro americano. Mas a insegurança não foi eliminada.

Com suas novas ações, o Fed mostrou ao mercado, mais uma vez, sua disposição de fazer o possível para evitar uma crise sistêmica. A mensagem foi bem recebida. Mas um banco central, mesmo o mais poderoso do mundo, tem limitações e isso não é segredo para o mercado. Cada executivo do sistema bancário tem de continuar avaliando o risco de seus parceiros.

Essa avaliação é em grande parte adivinhação, porque os próximos balanços trimestrais podem ainda causar muito susto. Apesar dos resultados menos ruins do que se esperava dos bancos Goldman Sachs e Lehman Brothers, a expectativa de outros calotes persiste. Além disso, a extensão das perdas só ficará razoavelmente clara quando o mercado imobiliário se estabilizar. A partir desse momento, será possível avaliar com razoável segurança os ativos das instituições financeiras. Segundo alguns analistas, isso dificilmente ocorrerá antes do terceiro trimestre.

Até lá, será preciso evitar a contaminação do chamado setor real da economia. A crise no mercado imobiliário já afeta o consumo e a atividade industrial nos Estados Unidos, mas ainda em pequena escala (em fevereiro a produção industrial caiu 0,2%). Embora ainda não se espere uma recessão, a economia americana deve crescer menos que nos últimos anos. O grande objetivo das autoridades americanas, nesta altura, é impedir um esfriamento maior das atividades. Para isso será preciso manter certo nível de financiamento ao consumo e à produção, tarefa difícil, quando os bancos operam num cenário de grande incerteza. A solução desse problema está fora do alcance, quase certamente, da autoridade monetária.

Os juros básicos da economia americana já são negativos, isto é, menores que a inflação, e novos cortes talvez não produzam nenhum estímulo adicional à produção e ao consumo. Além do mais, o Fed poderá hesitar antes de novos cortes. Apesar de certo esfriamento da atividade, as pressões inflacionárias persistem, alimentadas principalmente pelos altos preços da energia e pela valorização das commodities agrícolas. É difícil prever com segurança a evolução desses preços, mas muitos analistas apostam em cotações firmes, ou mesmo em alta, nos próximos meses.

A situação dos preços limita as possibilidades de ação do Fed a partir de agora. Parte dos operadores do mercado financeiro interpretou a última decisão do banco central americano - um corte de 0,75 ponto e não de 1 ponto porcentual - como um recado: o afrouxamento da política monetária está chegando aonde poderia chegar. Se ocorrer algum novo corte, será pequeno. O Executivo americano poderá agir para estimular os negócios, complementando a ação do banco central.

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