Título: Impasse agrava a situação na Argentina
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/03/2008, Economia, p. B10
Governo deve anunciar hoje medidas para beneficiar pequenos agricultores
Após um fim de semana de idas e vindas, trocas de acusações e tentativas de conciliação, o governo da presidente Cristina Kirchner e as lideranças das quatro associações de produtores agropecuários vislumbravam ontem à noite a possibilidade de retomar o diálogo hoje.
O governo e os agricultores estão em pé de guerra desde o início de março, quando Cristina decretou o aumento dos impostos sobre exportações agrícolas, medida que levou os produtores a uma paralisação sem precedentes no setor. Os protestos, incluindo bloqueios de estradas, além de provocarem o desabastecimento de alimentos, constituem-se no maior desafio já declarado por um setor ao denominado ¿casal presidencial¿ (a presidente Cristina e o ex-presidente Néstor Kirchner, que governam o país desde 2003).
Os produtores exigem a suspensão dos aumentos dos impostos. Mas o governo recusa-se a discutir o fim dos reajustes. No fim da noite de ontem, o governo acenou com o anúncio, a ser realizado hoje, de um pacote de medidas para beneficiar pequenos produtores agrícolas.
O chefe do Gabinete de Ministros, Alberto Fernández, afirmou que o governo pretende ¿continuar conversando¿ com as lideranças agropecuárias. Mas destacou que a paralisação dos agricultores e os piquetes nas estradas ¿são um obstáculo para o diálogo¿.
Na sexta-feira, as quatro associações do setor haviam decidido suspender a paralisação. Mas, menos de 24 horas depois, sem obterem avanços nas reuniões com os ministros, retomaram os protestos. Os piquetes no sábado impediram a passagem de caminhões com produtos agrícolas em vias como a Estrada Nacional Número 14, por onde passa o maior volume das mercadorias transportadas entre o Brasil e a Argentina.
Ontem, o Ministro do Interior, Florencio Randazzo, emitiu comunicado no qual dizia que o setor agropecuário ¿só terá soluções¿ se a paralisação e os piquetes forem suspensos. ¿O único efeito dos piquetes é o desabastecimento para nossas crianças e idosos.¿ Nas gôndolas de supermercados já faltam carne, laticínios e verduras.
Poucas horas depois, as lideranças agropecuárias também emitiram um comunicado, ressaltando sua ¿vocação para dialogar¿. E liberaram a passagem de caminhões com alimentos perecíveis nos bloqueios.
Mesmo com uma possível retomada da negociação hoje, o cenário era de impasse até ontem à noite, já que o governo afirma que não aceita de forma alguma a suspensão dos aumentos dos impostos sobre as exportações, como exigem os produtores. No fim de semana, as lideranças agropecuárias pediram que o governo pelo menos suspendesse os aumentos por 90 dias. Em troca, encerrariam a paralisação. Mas Cristina rejeitou a proposta.
O governo também anunciou ontem que a presidente cancelou sua viagem para Londres, onde se encontraria com o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, para intensificar as reivindicações sobre as Ilhas Malvinas, em posse da Grã-Bretanha desde 1833. Ainda estava prevista, uma reunião com o presidente francês Nicolas Sarkozy.
Os impostos sobre exportações são o ponto principal do conflito entre governo e agricultores. Os tributos sobre a venda de soja para o exterior, por exemplo, passaram de 25% em janeiro de 2007 para 35% em novembro até chegar a 44,1% em março. Com esses impostos, o governo deve arrecadar US$ 11 bilhões neste ano.
A VOLTA DO PANELAÇO
Histórico: o conflito começou no início do mês, quando o governo anunciou o aumento de impostos sobre exportação de produtos agrícolas. No caso da soja, os tributos passaram de 35% para mais de 44%. Além disso, o governo estabeleceu um complexo sistema de impostos ¿móveis¿, com os quais pode ficar com 95% do aumento do valor (e o produtor deve pagar impostos sobre os 5% que ficam para ele), caso o preço internacional dos produtos subir acima de determinado patamar
Os produtores exigem: a suspensão dos aumentos sobre os impostos e a liberação das exportações de trigo, suspensas temporariamente pelo governo, que pretende redirecionar o produto para o mercado interno
O governo oferece: subsídios para pequenos e médios agricultores e facilidades de créditos para o setor, mas nega-se a suspender o aumento de impostos
O governo exige: o fim da paralisação e dos piquetes nas estradas
Efeitos da greve: crescente desabastecimento de alimentos, aumento da inflação, ameaças de demissão de operários por parte do setor agroindustrial, queda da aprovação popular de Cristina e volta dos panelaços contra o governo
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