Título: Está com tudo e está prosa
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/03/2008, Notas e Informações, p. A3
Uma coincidência nos jornais de ontem dá o que pensar. Toda a imprensa, como não poderia deixar de ser, destacou os novos números da série de pesquisas CNI/Ibope que elevam o presidente Lula a alturas estonteantes: 68% dos brasileiros dizem confiar nele, 73% aprovam o seu governo e também inéditos 58% o consideram ótimo ou bom. No mesmo dia, a Folha de S.Paulo confirmou que o Planalto havia montado um dossiê com os gastos pagos com cartões corporativos para o então presidente Fernando Henrique e sua mulher, Ruth Cardoso, a partir de 1998.
Dados do gênero, como se sabe, saíram na edição da revista Veja que começou a circular no último fim de semana. Em nota oficial, o governo acusou a revista de mentir e manipular informações. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ligou para Ruth Cardoso, negando taxativamente a existência de um dossiê. Mas, segundo o jornal, o dossiê existe e foi produzido pela principal assessora da ministra, a secretária-executiva Erenice Guerra.
O que a simultaneidade das duas notícias faz pensar é que, no nirvana da sua popularidade, a Lula decerto pouco se dá que venha a público mais uma felonia da sua gente. (Ele, como sempre, não sabia...) No caso, uma versão atualizada do simulacro de dossiê com que em 2006 a companheirada do quintal palaciano e do comando de campanha reeleitoral do presidente (os ¿aloprados¿, lembram-se?) imaginava minar as chances do candidato do PSDB ao governo paulista, José Serra. A torpeza explodiu na cara dos seus autores e levou a disputa pelo Planalto ao segundo turno.
Já o dossiê atual foi concebido para dissuadir a bancada oposicionista na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Cartões de cobrar a divulgação das despesas da Presidência Lula que o governo mantém em sigilo, alegando razões de segurança. Haveria provas - essa a base da chantagem - de que, na gestão tucana, o Palácio era um armazém de mordomias.
O golpe ficou desmoralizado quando o ex-presidente autorizou a quebra do sigilo das despesas de custeio relacionadas a si e a sua família.
Apanhada no contrapé pela confirmação da existência do dossiê, a ministra Dilma reconheceu ontem que o governo montou efetivamente um banco de dados, mas só para atender a possíveis requisições legais. Claro: não há quem desconheça a capacidade deste governo de se antecipar aos problemas. De todo modo, a ministra Dilma Rousseff sabia que sua explicação não iria convencer muita gente. Ela não podia deixar de dar alguma, e deu essa. E vai dormir tranqüila. Ela sabe que apenas uma minoria se incomoda com os desvios éticos do lulismo. São os 28% que declararam não confiar no presidente, conforme o resultado mais adverso para ele da referida sondagem CNI/Ibope.
Não será um dossiê contra um antecessor com baixos teores de popularidade, aliás, que arranhará a veneração popular por Lula. Para quem deu a volta por cima do mensalão, em grande estilo, depois de duvidar da própria reeleição, na pior hora de 2005, esse caso ele ¿tira de letra¿.
Por sinal, uma demonstração do estado de graça em que flutua está na versão de um de seus telefonemas ao presidente Bush, que transmitiu a uma platéia de empresários brasileiros e mexicanos, anteontem no Recife: ¿Ô Bush, o problema é o seguinte, meu filho: nós ficamos 26 anos sem crescer e agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar, pô?¿¿
Outro sintoma de bem-aventurança foi o seu mea-culpa por ter passado 30 anos ¿xingando o Delfim¿ e ¿carregando faixa contra o FMI¿. Outro ainda foi o ar de deboche com que, numa entrevista, chamou o venezuelano Hugo Chávez de ¿pacificador¿ das recentes tensões entre a Colômbia e o Equador, que ameaçavam levar os dois países às vias de fato. A seu lado, desenxabido, o caudilho soltou um ¿incrível¿.
Lula se julga ¿mais maduro politicamente¿. Não há dúvida quanto a isso. Precisa amadurecer um pouco mais, no entanto, para diminuir a estridência de suas diatribes contra a oposição, o que parece, mas não é, uma compulsão que o acomete assim que sobe a um palanque. Na realidade, é ingrediente essencial de sua receita de campanha eleitoral permanente. E a platéia, diria o Gonzaguinha, ainda aplaude e pede bis.
Por isso ele está com tudo e está prosa.
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