Título: Pecuaristas argentinos suspendem locaute e vão negociar com Cristina
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/03/2008, Economia, p. B18

Mas o governo poderá enfrentar hoje um novo `panelaço¿ da classe média em frente à Casa Rosada

O governo de Cristina Kirchner conseguiu ontem mais um trunfo na longa briga que ela e o governo de seu antecessor e marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), têm com o setor agropecuário. Após 16 dias de greve e de piquetes nas estradas, as associações agropecuárias decidiram fazer uma trégua e suspender as medidas de pressão.

Na véspera, Cristina - em discurso durante um evento para mostrar força política, que contou com a presença de seus ministros, governadores e centenas de prefeitos - sustentou que só negociaria se os agricultores suspendessem a greve e acabassem com as barreiras nas estradas.

¿Não negocio com um revólver apontado para a cabeça¿, disse Cristina na ocasião. O tom duro e categórico da presidente deixou claro aos produtores que seria necessário ceder para poder estabelecer o diálogo com o governo.

Ontem, após longos debates internos, as lideranças das quatro associações - Sociedade Rural, Coninagro, Federação Agrária e Confederações Rurais Argentinas - decidiram recuar. No início da noite, foram até a Casa Rosada, o palácio presidencial, para iniciar o diálogo com o governo.

Segundo os analistas, Cristina foi a vitoriosa da jornada. No entanto, a definiram como ¿uma vitória de Pirro¿, em alusão aos pesados custos políticos que o confronto com o setor agropecuário provocou, entre eles uma nova alta da inflação e o desabastecimento de produtos alimentícios no comércio.

A princípio, o governo recusa-se a suspender os aumentos das retenções sobre as exportações - no caso da soja, o governo aumentou o imposto de exportação dos 25% em janeiro de 2007 para 35% em novembro passado até os atuais 45% implementados há poucas semanas.

Mas, em troca da manutenção dos aumentos que os agricultores repudiam, oferece um plano que visa primordialmente aos pequenos e médios agricultores. A proposta de Cristina é criar um plano de subsídios para o setor, créditos com baixas taxas de juros por parte do estatal Banco de la Nación para pequenos agricultores, além de um programa para fornecer fertilizantes a baixos custos.

As lideranças agropecuárias devem passar o fim de semana discutindo se aceitam ou não as propostas do gabinete presidencial. A decisão das lideranças agropecuárias, em diversos pontos do país, irritou os agricultores, que há mais de duas semanas realizavam piquetes e enfrentaram pressões da polícia e agressões dos caminhoneiros (aliados do governo). As lideranças tentaram, em um comunicado, apaziguar suas próprias bases: ¿o diálogo exige esforços¿. Porém, em Gualeguaychu , os piquetes foram retomados na anoite de ontem e a Estrada Nacional 14, conhecida como Estrada Mercosul, bloqueada.

MARADONA

No meio da confusão de reuniões políticas e declarações empresariais, ressurgiu o ex-astro do futebol Diego Maradona, que estava em Entre Ríos - o foco mais tenso dos piquetes - para participar de sua nova obsessão, os rallies. ¿Nunca vi donos de sítios usando paletó e gravata Versace¿, ironizou Maradona, sobre as declarações de Cristina, dias atrás, segundo as quais os agricultores viviam na abundância. Segundo Maradona, ¿Cristina deve estar mal assessorada¿. Os agricultores também receberam o inesperado apoio do líder piqueteiro esquerdista Raúl Castells. Ontem, no fim da tarde, Castells realizou uma manifestação na Praça de Maio, em frente da Casa Rosada a favor dos produtores.

A noite desta sexta-feira prometia um novo panelaço por parte da classe média portenha contra a inflação, além de respaldar o setor agropecuário. Ao longo do dia, uma corrente por e-mail convocou os portenhos a bater panelas e marchar em direção à Praça de Maio durante a noite.

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