Título: Sadr, líder xiita, ocupa papel-chave para a paz
Autor: IRAQUE, Basra,
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/2008, Internacional, p. A18

Violência em Basra é teste para clérigo, que lidera maior milícia do Iraque

Mariana Della Barba, com Reuters, Bagdá

O clérigo xiita radical Muqtada al-Sadr é um líder improvável. Primeiro porque é extremamente jovem - 35 anos - para uma sociedade na qual idade e experiência são essenciais para uma autoridade religiosa.

A rigor, Sadr é um líder religioso sem autoridade religiosa - no ¿ranking¿ da religião islâmica xiita, ele seria o equivalente a um mestrando, enquanto um aiatolá seria alguém com pós-doutorado. Ele é respeitado por ser filho do grão-aiatolá Mohammed Sdeq al-Sadr, assassinado em 1999 por desafiar o então ditador Saddam Hussein.

O jovem clérigo também contrariou a tradição ao se tornar líder em pouquíssimo tempo: de figura praticamente desconhecida antes da invasão dos EUA, há cinco anos, em poucos meses passou a ser um dos iraquianos mais famosos no país.

Sadr chamou a atenção do governo do Iraque e dos EUA pela primeira vez em março de 2003. Dias após os soldados americanos terem entrado em Bagdá, Cidade Sadr - o maior reduto xiita da capital - amanheceu coberta de retratos do clérigo. Mas na época, sua importância foi desprezada. Em junho do mesmo ano, Sadr criou a milícia Exército de Mehdi e passou a atrair mais atenção. Em 2004, seus homens travaram intensas batalhas com as forças de coalizão em Faluja e Najaf. A partir de então, Sadr não podia mais ser ignorado e foi convidado a participar do governo. Sua base aliada foi fundamental para eleger o atual primeiro-ministro, o xiita Nuri al-Maliki. Atualmente, seu grupo político controla seis ministérios e ocupa 30 cadeiras no Parlamento.

Sadr, porém, foi acusado de criar esquadrões da morte para promover uma ¿limpeza étnica¿ contra os sunitas. Os EUA então qualificaram o Mehdi como a mais grave ameaça à estabilização do Iraque. Sadr refugiou-se no Irã e voltou ao Iraque somente em maio de 2007. Foi então que o já confuso cenário político do Iraque ficou ainda mais embaralhado: o religioso proibiu sua milícia de atacar as tropas do governo, pediu a união dos xiitas, sunitas e curdos e discursou não mais como um dirigente xiita, e sim como líder nacional.

Três meses depois, ordenou que seus rebeldes aceitassem um cessar-fogo, que, em teoria, ainda está em vigor. A medida transformou Sadr em um enigma para Washington e Bagdá, que não sabem se devem tratá-lo como inimigo ou aliado.

O cientista político iraniano Vali Nasr criticou a Casa Branca por insistir em aplicar ao clérigo a política de não negociar com terroristas. ¿É preciso diferenciá-lo de outros insurgentes, porque ele também tem poder político e já demonstrou seu interesse em cessar a violência¿, disse Nasr ao Estado, por telefone. Mas, para Nasr - que integra o Conselho de Relações Exteriores, instituto americano que edita a revista Foreign Affairs -, é preciso levar Sadr a sério ¿sem esquecer que ele é imprevisível e, a qualquer hora, pode colocar seus homens (estimados em mais de 60 mil) nas ruas e provocar o caos no Iraque¿. Temor que se intensificou após o conflito de ontem, que começou em Basra e se espalhou para o país.

A violência é um teste para o apoio de Sadr diante de sua milícia. Já seu poder político será colocado à prova em outubro, nas eleições provinciais. Se a bancada sadrista for eleita em peso, o clérigo ganhará ainda mais poder para determinar o futuro do Iraque.

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