Título: Ofensiva ameaça trégua no Iraque
Autor: IRAQUE, Basra,
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/2008, Internacional, p. A18

Ataque de tropas iraquianas e americanas contra principal milícia xiita deve retomar ciclo de violência no país

Basra, IRAQUE

Violentos confrontos entre soldados iraquianos e a milícia xiita Exército Mehdi na cidade de Basra provocaram ontem uma onda de violência que se espalhou para outras áreas do país. Pelo menos 22 pessoas foram mortas no conflito, que põe em risco a trégua que o grupo mantém desde agosto e foi fundamental para a redução da violência no Iraque. Choques em várias cidades deixaram outros 30 mortos.

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Em Basra, o mais importante centro petrolífero, situado no sul do país, os choques começaram quando forças de segurança - apoiadas por helicópteros - tentaram retomar o controle de áreas da cidade dominadas pela milícia. Testemunhas disseram que caças americanos e britânicos também participaram da incursão, que foi acompanhada pessoalmente pelo primeiro-ministro, Nuri al-Maliki.

Com o objetivo de ¿varrer os criminosos e terroristas de Basra¿, a operação provocou reações violentas de integrantes do Exército de Mehdi, que até ontem estavam respeitando o cessar-fogo. A poderosa milícia é controlada pelo clérigo xiita radical Muqtada al-Sadr, que também exerce influência política no Parlamento (leia abaixo).

Sadr, que não é visto em público há meses, divulgou ontem um comunicado conclamando os iraquianos a protestar pacificamente, mas prometeu dar início a uma ¿revolta civil¿ se os ataques das forças de segurança continuassem. Na segunda-feira, ele havia pedido uma campanha nacional de desobediência civil, em resposta às medidas repressivas ¿injustificadas¿ do governo iraquiano e dos EUA, que vinham promovendo ações pontuais contra sua milícia. As autoridades alegam que estão combatendo apenas rebeldes que não respeitam o cessar-fogo.

Apesar de o clérigo não ter se pronunciado sobre a trégua, a violência de ontem provocou temores de que o cessar-fogo do Exército Mehdi possa entrar em colapso e anular os avanços na segurança iraquiana nos últimos sete meses, período em que a violência caiu 60%, segundo os EUA. Durante os confrontos, Basra foi tomada por uma fumaça negra, e imagens de TV mostraram rebeldes dirigindo veículos capturados do Exército iraquiano. O controle da cidade é disputado pelos rebeldes do Mehdi, pelo grupo xiita rival Brigada Badr, e por outro grupo menor conhecido como Fadhila.

O conflito entre rebeldes e tropas do governo também atingiu a capital, Bagdá, e cidades como Kut, Hilla, Nassíria e Diwaniya, que impuseram toque de recolher. Em Bagdá, onde lojas e escolas foram fechadas, ataques com foguetes e granadas de morteiros foram lançados contra a Zona Verde, área amplamente fortificada que abriga órgãos diplomáticos e do governo. No norte da capital, uma explosão matou um soldados americano. O bairro Cidade Sadr, reduto do Exército Mehdi, foi isolado por barreiras de soldados, tanto iraquianos como americanos. No interior do bairro, rebeldes fortemente armados patrulhavam as ruas. AP, NYT E REUTERS

ESCALADA DA VIOLÊNCIA

1/2/2004: Atentados matam 117 em Erbil (norte)

2/3/2004: Ataques em Bagdá e Kerbala deixam 171 mortos

28/2/2005: Carro-bomba mata 125 em Hilla

14/9/2005: Ataque mata 114 em distrito xiita de Bagdá

5/1/2006: Atentados deixam 120 mortos em Kerbala e Ramadi

23/11/2006: Cinco carros-bomba deixam 161 mortos e 257 feridos em reduto xiita de Bagdá

14/8/2007: Atentados deixam 175 mortos perto de Mossul

29/8/2007: Muqtada al-Sadr ordena que sua milícia suspenda todo tipo de ação armada. Desde então, violência no país caiu 40%

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