Título: Sarkozy busca novo prestígio
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/2008, Internacional, p. A19

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, será recebido hoje pela rainha Elizabeth II da Inglaterra. A visita é considerada um importante teste para a popularidade do líder francês, pois até agora, salvo a sua vitória na eleição presidencial, ele vem obtendo pouco sucesso em seus projetos dentro e fora da França.

No país, sua popularidade está mais baixa do que nunca. Para uma parte da imprensa mundial ele é um tipo ¿engraçado¿, ¿um palhaço¿. Angela Merkel, a chanceler alemã, não suporta esse curioso personagem que sempre procura abraçá-la e tocá-la. Muitos líderes mundiais temem esse indivíduo vaidoso, tagarela como um vendedor ambulante e dono de uma grande ¿cara de pau¿.

No encontro com o premiê britânico, Gordon Brown, Sarkozy reforçará a idéia de um eixo França-Grã-Bretanha no centro das decisões do continente, substituindo o antigo França-Alemanha. A visita a Londres, portanto, será um importante teste de prestígio e oportunidade para o líder francês retomar a dianteira nos assuntos europeus.

O sucesso de Sarkozy dependerá do veredicto da rainha sobre ele. Elizabeth é uma examinadora magnífica, mas altiva. Uma senhora digna. Como rainha da Inglaterra é uma especialista inflexível em matéria de polidez, boa educação e protocolo.

Felizmente, a diplomacia francesa pôs-se em estado de alerta. Ninguém duvida que os especialistas do Palácio do Eliseu repassaram a lição com Sarkozy: como segurar o garfo? Em que momento se pode sentar? A França, portanto, está muito otimista. Como Sarkozy é um homem que aprende as coisas rapidamente, espera-se que ele evitará todos os tropeços, e não vai ter a idéia de enviar o tempo todo mensagens pelo seu celular durante o banquete, como ocorreu no Vaticano, durante a audiência com o papa Bento XVI, para assombro dos presentes.

Mas há outros perigos. É preciso saber que não se dirige a palavra à rainha. É ela quem se dirige a você. Nada de piadinhas libertinas ou palavras ambíguas. A rainha é uma senhora puritana. Se por acaso estabelecer-se uma conversa com ela, um novo perigo: a conversa só deve girar em torno de banalidades. É preciso saber também que, se a rainha, após ter escutado, um tanto sonolenta, a sua intervenção, lhe disser com uma voz de enfado, ¿muito interessante¿, isso quer dizer ¿muito idiota¿. Você deve ¿mudar o rumo¿ como se diz na Marinha Real britânica. Outra precaução: corpo da rainha é sagrado. Não se pode tocar nem mesmo na sua mão.

Por sorte, ao lado dele estará Carla Bruni, que é inteligente, culta, de uma elegância e uma distinção fora do comum. Portanto, ela agirá com prudência. O mínimo deslize de Sarkozy provocará um discreto franzir das sobrancelhas que recolocará o presidente em seu lugar.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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