Título: Inflação made in China
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/04/2008, Notas Informações, p. A3

Produtos chineses baratos continuam a inundar o mercado brasileiro. Calcula-se que, só neste ano, mais de 220 milhões de unidades de produtos chineses, como utensílios domésticos, objetos de decoração, brindes e ferramentas destinados principalmente às classes C e D, serão vendidos no mercado brasileiro. Fábricas instaladas no Brasil deixaram de produzir rádio portátil, CD player pessoal e rádios-relógio, entre outros itens, porque não tinham condições de competir com o similar chinês, como mostrou reportagem de Marcelo Rehder publicada segunda-feira no Estado.

Os consumidores provavelmente ainda não notaram uma mudança importante na hora de comprar um produto chinês. Embora ele continue barato, está chegando ao mercado com preço mais alto do que antes. A China, que durante anos foi um fator de contenção dos preços no mundo, por causa de seu baixo custo de produção - resultado da combinação de salários aviltados, regulamentação mínima do mercado de trabalho e moeda barata -, está começando a alimentar a inflação em outros países.

Indústrias brasileiras que importam produtos acabados de suas parceiras na China e neles afixam suas marcas estão sendo surpreendidas no momento de repor os estoques. Os produtos chegam com aumentos de 5% a 15% no caso de itens como ferramentas elétricas, ferros elétricos e eletrodomésticos em geral. Esses aumentos serão repassados ao consumidor e captados pelos diferentes índices de preços.

A inflação chinesa está se acelerando. Em fevereiro, alcançou 8,7% no acumulado de 12 meses. É muito alta se comparada com a de outros países e particularmente preocupante num país que vem crescendo a um ritmo superior a 10% ao ano há bastante tempo. Há alguns dias, o governo reduziu a quantidade de moeda em circulação para tentar conter a inflação e reduzi-la para 4,8% ao ano até o fim de 2008. Mas a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim, que abrirão muitos postos de trabalho e atrairão milhões de turistas, estimulando o consumo, dificultará a tarefa.

A demanda interna aquecida, que fez subir rapidamente as cotações das principais commodities agrícolas e do petróleo nos últimos meses, está entre os principais fatores que impulsionam os preços internos na China e elevam os custos de produção do país, encarecendo seus produtos de exportação.

Também tem peso cada vez maior na planilha de custos das indústrias da China o item mão-de-obra. Até recentemente, o baixíssimo custo do trabalho era apontado como a principal fonte da extraordinária competitividade dos produtos chineses, que tornou inviável a sobrevivência de segmentos inteiros da indústria de vários países. Muitos supunham que a quase inesgotável disponibilidade de mão-de-obra - estimava-se em 150 milhões de pessoas o contingente de trabalhadores rurais subempregados que iria para as cidades - manteria indefinidamente os salários estagnados num nível pouco superior ao de subsistência.

Já há algum tempo, porém, o país enfrentava a escassez de mão-de-obra em alguns setores e regiões, o que pressionava os salários. A nova lei trabalhista, que entrou em vigor em 1º de janeiro deste ano, acelerou a alta dos salários. Essa lei assegura aos trabalhadores chineses direitos e proteção, como aposentadoria, negociação coletiva de contratos de trabalho e possibilidade de celebração de contratos de longo prazo. É espantoso que um país que se diz socialista só agora adote medidas como essas, que há muito tempo vigoram nos países capitalistas.

Quando começou a onda de alta dos salários, algumas empresas exportadoras tentaram compensar o aumento do custo da mão-de-obra com automação e ganhos de produtividade, para atender às exigências dos varejistas americanos que queriam produtos baratos. Mas esse processo tem um limite, que parece estar sendo atingido em vários setores da indústria. 'Haverá aumento nos preços de calçados, têxteis e todo tipo de produtos domésticos', previu um dirigente da Câmara Americana de Comércio de Xangai, em declaração à revista Business Week.

Depois de 20 anos ajudando a conter a inflação mundial com seus produtos baratos e altamente competitivos, a China começa a exportar inflação.