Título: Transplantes de órgão de doadores vivos crescem 90% em 10 anos no País
Autor: Sant¿Anna, Emilio
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/04/2008, Vida&, p. A19

Especialistas alertam que alta reflete falha na captação, porém esse tipo de cirurgia ajuda a tirar pacientes da fila

O número de transplantes feitos com órgãos de doadores vivos aumentou 90% nos últimos dez anos no País. Os dados são da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Em 1997, 960 pessoas doaram parte do fígado ou um rim a pacientes que estavam na lista de espera. Em 2007, foram 1.825 doações.

Para especialistas, esse tipo de procedimento é reflexo das falhas do sistema de captação de órgãos, mas ajuda a tirar das listas pacientes com poucas perspectivas. Até junho de 2007, 34.077 pessoas esperavam por um órgão na fila com o maior número de pacientes: a de rim. Na mesma época, 7.036 aguardavam por um fígado.

O nefrologista Valter Garcia, presidente da ABTO, vê bons motivos para a doação inter vivos. ¿O melhor doador sempre vai ser o doador vivo, com padrão imunológico idêntico¿, diz. Mas ele ressalva que isso deve ocorrer só com pessoas da mesma família. ¿Restringimos ao máximo que um filho doe para o pai, por exemplo, pois é uma pessoa com expectativa de vida maior.¿

Para algumas pessoas, no entanto, receber um fígado de um familiar (mesmo que seja de alguém mais novo) é a única opção. São pacientes com baixo Meld - índice que mede a gravidade do quadro clínico e é utilizado para organizar a fila -, mas que não podem esperar mais pelo transplante.

Foi o que aconteceu com o aposentado Massami Ide, de 72 anos. Após cinco anos esperando para receber um fígado, uma encefalopatia o levou à UTI. As causas da doença de Ide nunca foram identificadas e seu Meld era baixo. A partir de julho de 2006, a rotina da família Ide era marcada pelas internações do aposentado. ¿Quando a médica me disse que ele estava em coma e não sabia se ele iria voltar, decidi que faria a doação¿, diz a filha, Cintia Tiemi Ide, de 32 anos.

DESESTÍMULO

O hepatologista Agnaldo Soares Lima, coordenador do Serviço de Transplantes de Órgãos do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, afirma que em países com sistemas de captação eficientes, como EUA e Espanha, o número de transplantes inter vivos aumentou nos últimos anos como resultado do alto nível de captação, difícil de ser ultrapassado. ¿Aqui, não conseguimos ainda atingir um nível satisfatório de doações e já recorremos muito a esse tipo de transplante¿, diz. ¿O óbvio é explorar mais os transplantes de doadores cadáveres.¿

Segundo o coordenador do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), Abrahão Salomão, o aumento de doações inter vivos é resultado da captação insuficiente de órgãos. ¿Um dos inconvenientes é que o aumento de doadores vivos pode desestimular a busca por doadores falecidos, o que prejudica o sistema de transplantes em qualquer lugar do mundo¿, afirma.

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