Título: E o consumo do governo?
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Fonte: O Estado de São Paulo, 07/04/2008, Notas e informações, p. A3

O consumo das famílias deverá crescer 7,5% neste ano, tornando-se um dos principais responsáveis pelo crescimento do PIB, previsto em 5%. A nova estimativa do consumo das famílias é uma das principais mudanças nas perspectivas para a economia brasileira em 2008 traçadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em relação às previsões apresentadas em dezembro do ano passado, quando o aumento do consumo foi estimado em 6,2%.

O aumento do emprego e os programas de transferência de renda continuam a beneficiar mais as famílias que ganham menos, cujo consumo tende a aumentar proporcionalmente mais do que o das famílias de renda mais alta. A oferta de crédito igualmente atinge mais diretamente essa faixa. O efeito desses fatores deverá ser maior do que se previa em dezembro, daí a revisão do crescimento do consumo.

O aumento do consumo tem sido maior do que o da produção. A CNI lembra que em 2007, enquanto o consumo cresceu 6,9%, o PIB cresceu 5,4%. É uma observação que justifica a advertência feita pelo Banco Central (BC), em suas mais recentes avaliações da conjuntura, sobre o descompasso entre demanda e oferta. Também como o BC, a CNI identifica pressões mais fortes sobre os preços, e por isso reviu sua projeção de inflação para 2008, de 4,1% para 4,7%.

Ao contrário do BC, no entanto, a CNI não vê um perigo iminente de aceleração da inflação em decorrência do aumento do consumo. A intensificação da atividade, segundo a CNI, não ameaça esgotar a capacidade instalada do parque industrial, cujo nível de utilização diminuiu de 83,1% em janeiro para 82,9% em fevereiro. A indústria vende mais (o faturamento de fevereiro foi 0,3% superior ao de janeiro) com menor uso de sua capacidade instalada. Já uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) constatou um aumento da utilização da capacidade instalada da indústria, de 84,7% em fevereiro para 85,2% em março.

Na avaliação do coordenador da pesquisa da FGV, Aloísio Campelo Júnior, o aquecimento da atividade industrial em março preocupa. ¿Mantido esse ritmo de atividade é possível haver um descasamento entre oferta e demanda não tão pontual, e se faria necessária alguma medida para conter o consumo¿, diz Campelo.

A CNI, no entanto, além de mostrar a redução da utilização da capacidade da indústria no boletim Indicadores da Indústria, observou em outra publicação, o Boletim de Conjuntura, que os investimentos estão crescendo há oito trimestres consecutivos a um ritmo que é, pelo menos, o dobro da média de crescimento da economia. Em 2007, a produção de bens de capital cresceu 19,5%, o triplo do crescimento médio da indústria de transformação. Para este ano, a CNI prevê aumento de 14% nos investimentos.

Além disso, como observou, o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, ¿o uso da capacidade instalada da indústria está estável desde setembro¿. Isso, na sua opinião, ¿revela que o investimento do setor está amadurecendo¿. O aumento das importações, a um ritmo maior do que o crescimento do consumo, também está contribuindo para evitar pressões inflacionárias.

É claro que, se a demanda continuar muito forte por muito tempo - com o consumo crescendo muito mais depressa que a produção e as importações aumentando muito mais do que as exportações -, problemas surgirão.

Por causa de seus gastos gerais crescentes e dos salários que paga ao funcionalismo, que também consome, o setor público é responsável por parte considerável da demanda. Os gastos públicos, lembrou o boletim da CNI, há anos vêm crescendo mais do que o PIB. No ano passado, as despesas do governo federal cresceram 13,3% ante o aumento de 9,7% do PIB em valores nominais. Também em 2008, os gastos do governo crescerão mais do que o PIB.

Para cobrir esses gastos, o governo onera o setor privado, arrancando mais dinheiro dos contribuintes. E, quando há alguma indicação de que a demanda global da economia está aquecida, o Banco Central, que é responsável pela política de metas inflacionárias, aumenta os juros. Isso afeta diretamente o setor privado, inibindo seu consumo e seus investimentos. Se é necessário reduzir a demanda, por que não exigir que o governo também faça sua parte, cortando seus gastos correntes?

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