Título: Indústria acelera e acende sinal de alerta
Autor: Chiara, Márcia De
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/04/2008, Economia, p. B6

Uso da capacidade sobe para 85,2% em março, aponta FGV

Márcia De Chiara

O ritmo de produção da indústria teve um repique em março e retomou o nível do segundo semestre do ano passado, quando a atividade estava superaquecida. Essa reaceleração, puxada especialmente pelo consumo interno, acendeu o sinal de alerta em relação à capacidade das fábricas de atender à demanda nos próximos meses e de criar pressões inflacionárias, apesar da forte expansão dos investimentos.

Isso é o que mostra a Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que consultou no mês passado 1.068 companhias, com faturamento anual de R$ 538,6 bilhões. O Índice de Confiança da Indústria (ICI), espécie de indicador que sintetiza as expectativas atuais e futuras dos empresários, atingiu 121,4 pontos em março. A alta foi de 5,8% em relação a fevereiro e de 4,5% ante o mesmo mês de 2007.

O uso da capacidade instalada das fábricas, um dos componentes do indicador, alcançou no mês passado 85,2%, com uma expansão de 2,1 pontos porcentuais na comparação com março de 2007. A mudança de rota é importante, porque em janeiro e fevereiro houve uma certa acomodação. Nessa época, chegou-se a cogitar que os investimentos já estariam tendo efeito na capacidade.

¿O uso da capacidade instalada subiu e acendeu o sinal amarelo, mas o movimento não é explosivo¿, afirma o coordenador da pesquisa, Aloisio Campelo. Ele pondera que o número de empresas que declarou estar hoje com estoques insuficientes para atender à demanda diminuiu de 8% em fevereiro para 6% em março, embora supere março de 2007, quando o indicador estava em 4%.

O economista ressalta que existe uma certa estabilidade nos estoques, o que, de certa forma, atenua o risco de pressões de demanda. Campelo diz que ainda é cedo para saber se a reaceleração da indústria é uma tendência. A sondagem de abril, que trará dados adicionais sobre pressões de custos e expectativas de aumentos de preços, além do uso da capacidade instalada, será decisiva para saber se o período atual é de superaquecimento e se medidas para conter o consumo, que foram ventiladas pelo governo, serão necessárias.

De toda forma, só com os dados de fevereiro que sinalizam um ritmo de crescimento semelhante ao registrado no segundo semestre de 2007, de 6% anualizado, ¿é muito provável que ocorra descasamento entre a oferta e a demanda¿, observa Campelo.

A sondagem aponta que a demanda global, a soma do consumo doméstico com as exportações, atingiu em março 124 pontos, com alta de 5,1% ante fevereiro e de 6% na comparação com março de 2007. ¿O resultado de março ficou só um ponto abaixo do de novembro em 2007, o maior desde 1986¿, diz.

O motor do crescimento é o consumo doméstico. No mês passado, 34% das indústrias informaram que a demanda interna estava forte. Em fevereiro, foram 30% e, em março de 2007, 28%. Campelo destaca que sondagem recente feita com o consumidor mostra que ele está otimista, deseja ir às compras e não está pressionado pela inadimplência.

Segundo a sondagem industrial, o desempenho da demanda externa está surpreendendo. Apesar da crise financeira dos EUA, o nível de demanda externa cresceu 1,9% em março ante fevereiro e houve um recuo de só 0,9% em doze meses.

FUTURO

A situação dos negócios para os próximos seis meses também carrega uma boa dose de otimismo. O indicador, que acumulava 149 pontos em fevereiro, subiu para 158 pontos em março e atingiu a maior marca desde julho de 2000. Em março, 60% das empresas informaram que a situação estaria melhor em seis meses e 2% acreditaram numa piora.

Esse cenário ganha respaldo com as intenções de contratar. Das empresas consultadas, 37% prevêem aumento da mão-de-obra nos próximos três meses e 16%, diminuição. Em março de 2007, essas participações eram de 25% e 14%, respectivamente.

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