Título: US$ 5 mil malgastos por segundo na guerra
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2008, Internacional, p. A12
A guerra do Iraque está agora caminhando melhor que o esperado. A maioria dos críticos da guerra, como eu, pisou na bola. Não antecipamos os avanços de segurança que são um resultado parcial do reforço de tropas do ano passado. O avanço é real, mas frágil e limitado. Eis ao que ele se resume: os EUA reduziram sua taxa de baixas de volta aos níveis inaceitáveis que o afligiam em 2005, e ainda não têm nenhum plano de saída para os próximos anos - tudo por uma conta que aumenta a um ritmo de quase US$ 5 mil por segundo!
Mais importante, embora as baixas em Bagdá tenham diminuído, os EUA estão começando a sofrer perdas na Flórida e na Califórnia. Os EUA parecem ter descambado para a recessão; americanos estão perdendo suas casas, empregos e seguro-saúde; bancos estão em dificuldade - e a guerra do Iraque parece ter agravado todos os problemas domésticos.
¿Os problemas econômicos atuais estão muito relacionados à guerra do Iraque¿, diz Joseph Stiglitz, economista ganhador do Nobel. ¿Ela foi, ao menos em parte, responsável pela alta dos preços do petróleo. Além disso, o dinheiro gasto no Iraque não estimulou a economia tanto quanto ocorreria se fosse gasto em casa. Para encobrir essas fraquezas da economia americana, o Fed (banco central dos EUA) propiciou uma inundação de liquidez; isso, somado à frouxidão de regulamentos, causou uma bolha imobiliária e um boom de consumo.¿
Nem todos concordam que a conexão entre o Iraque e as dificuldades econômicas dos EUA seja tão forte. Robert Hormats, vice-presidente do Goldman Sachs International, argumenta que a guerra é negativa para a economia, mas ainda é um fator menor da atual crise. ¿Será ela uma causa significativa desta recessão?¿ pergunta Hormats. ¿Eu diria que não. Mas o dinheiro poderia ter sido mais bem empregado para fortalecer nossa economia? A resposta é sim.¿
Apesar da discórdia, parece haver ao menos uma relação modesta entre os gastos no Iraque e as dificuldades econômicas em casa. Então, enquanto os americanos debatem se devem trazer suas tropas para casa, uma questão central deveria ser se o Iraque é o melhor lugar para investir US$ 411 milhões por dia. Eu tenho argumentado que permanecer indefinidamente no Iraque solapa nossa segurança nacional na medida em que fortalece os jihadistas. Por outro lado, os defensores da guerra argumentam que uma retirada do Iraque sinalizaria fraqueza e deixaria um vazio que extremistas preencheriam, e essas são preocupações legítimas. Mas, se você acredita que permanecer no Iraque faz mais bem que mal, terá de responder à pergunta: a presença é tão preciosa que vale o preço de solapar a economia americana?
Os US$ 12,5 bilhões por mês que estamos pagando hoje pelo Iraque são apenas uma entrada. Ainda estaremos fazendo pagamentos por incapacidade física a veteranos da guerra no Iraque daqui a 50 anos. Stiglitz calcula, num novo livro escrito com Linda Bilmes, que os custos totais, incluindo as contas de longo prazo, totalizam cerca de US$ 25 bilhões por mês.
Um estudo do Comitê Econômico Conjunto do Congresso revela que as quantias gastas na guerra do Iraque a cada dia poderiam incluir 58 mil crianças a mais no Head Start (programa de assistência a crianças carentes) ou dar Pell Grants (créditos para estudantes carentes) para 153 mil alunos freqüentarem a universidade. Ou, se quisermos realmente investir em segurança, então um dia de gastos no Iraque poderia financiar outros 11 mil guardas de fronteira ou 9 mil agentes de polícia.
Poderíamos fazer tudo isso e reabilitar a imagem dos EUA no mundo ao apoiar um esforço global para reduzir a mortalidade materna, erradicar a malária e livrar de vermes todas as crianças da África. Tudo isso consumiria menos que os gastos de um mês na guerra do Iraque.
Além disso, o governo Bush financiou a guerra de um modo que enfraquece a segurança nacional: por empréstimos. Assim, 40% da dívida ampliada ficarão em mãos da China e de outros países. ¿Essa é a primeira guerra importante na história americana em que todo o custo adicional foi pago com endividamento¿, observa Hormats. Se os partidários da guerra no Iraque acham que ela é fundamental, deveriam estar dispostos a pagá-la em parte com impostos.
De um modo ou de outro, teremos de pagar a conta. Stiglitz calcula que o custo total da guerra chegará a US$ 3 trilhões. Para uma família de cinco pessoas como a minha, isso representa uma conta de quase US$ 50 mil. Não sinto que esteja recebendo o que meu dinheiro vale.
*Nicholas D. Kristof é colunista do `New York Times¿
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