Título: Silêncio no caso Ingrid pode ocultar intensa negociação
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/04/2008, Internacional, p. A21

Especialista não se convence com aparente insucesso da missão francesa e acha que esforços ainda prosseguem

O silêncio e o aparente insucesso da missão humanitária francesa que tem como objetivo prestar socorro médico à ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt pode estar escondendo uma intensa negociação de bastidores entre os países mediadores de um acordo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A opinião é de um dos maiores especialistas em América Latina da França, o cientista político Olivier Dabène, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po).

Docente da mesma universidade que formou Ingrid Betancourt - e também líderes políticos como Jacques Chirac -, Dabène disse ao Estado, falando da Venezuela, que não se convence totalmente com o aparente insucesso da operação de socorro e resgate iniciada pelo governo da França na quarta-feira.

Desde então, diplomatas, médicos e enfermeiros aguardam em um avião médico Falcon 50, da Força Aérea francesa, a autorização para partir ao encontro da refém, seqüestrada em fevereiro de 2002 com sua assessora quando tentava estabelecer o diálogo com o grupo guerrilheiro. A franco-colombiana sofre de hepatite B, leishmaniose, malária e desnutrição, supostamente causada por uma greve de fome que teria sido iniciada em 23 de fevereiro. Segundo versões de camponeses divulgadas nos últimos dias, o estado de Ingrid é grave.

'Claro que fico pessimista com base nas notícias que recebemos', diz Dabène. 'Mas as Farc sempre se mostraram muito imprevisíveis no trato dos reféns, ora recusando-se a libertá-los, ora libertando-os.'

'O que está claro, paradoxalmente falando, é que não sabemos tudo. É muito provável que as negociações reais estejam nos escapando, prosseguindo como segredo de Estado', declarou Dabène.

Reforçando a idéia de que as negociações ainda estão em andamento, o ministro francês de Relações Exteriores, Bernard Kouchner, disse na sexta-feira, em entrevista à rádio Europe 1, que seu governo continua aguardando um sinal dos guerrilheiros. 'As Farc devem responder. Nós estamos esperando, de prontidão em Bogotá', afirmou Kouchner. 'Nós estamos tentando, tentando, tentando, e não há outra solução. Estamos movendo toda a América Latina, que está envolvida neste momento', acrescentou.

Outro indício de que uma reviravolta pode acontecer surgiu na sexta-feira por suspeitas levantadas, em Paris, pelo jornal Le Monde, um dos mais respeitados da Europa. Segundo o diário, o comunicado das Farc, divulgado na quinta-feira e atribuído a Rodrigo Granda, o 'chanceler' do grupo guerrilheiro, não seria atual. Na mensagem, Granda demonstra menosprezo pela ação da França e diz: 'Apenas como conseqüência de uma troca de prisioneiros aqueles que estão retidos em nossos campos poderão ser libertados.'

O texto, segundo o Le Monde, é idêntico a outro divulgado em 19 de março, antes do lançamento da missão humanitária francesa. Impressionada com a semelhança das declarações de Granda, a direção do comitê de apoio Agir pour Ingrid questionou os interesses vinculados ao comunicado: 'Há uma manipulação? E se há, a quem essa manipulação interessa?'

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