Título: A dura vida de quem precisa de visto em SP
Autor: Tavares, Bruno; Pereira, Rodrigo
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/04/2008, Metropole, p. C4
Pior serviço é o do Consulado do México, com muita fila e burocracia
Nem sempre é preciso pegar um avião e viajar milhares de quilômetros para ser vítima do descaso dos serviços de imigração. Em alguns consulados em São Paulo, filas, falta de informação e mau atendimento servem como aperitivo indigesto do que pode vir pela frente. Na última semana de março, o Estado percorreu sete das mais movimentadas representações diplomáticas da cidade - Espanha, México, Itália, Estados Unidos, Japão, Portugal e Reino Unido - e constatou que a busca por um visto ainda pode ser um martírio.
Há consulados, como o japonês e o britânico, em que o atendimento é primoroso - o primeiro pela organização; o segundo por ser procurado por apenas cinco pessoas por dia, uma vez que não exige visto de turistas. O português se destaca por ter informatizado os serviços - só é preciso comparecer na etapa final, para assinar e retirar documentos. Mas, nos outros, seja por demanda, organização ou simplesmente descaso, o atendimento exige paciência.
A situação mais caótica é a do Consulado-Geral do México. Filas formadas na madrugada e até na noite anterior destoam da calmaria das mansões vizinhas no Jardim Paulistano, um dos metros quadrados mais caros da cidade. Ali turistas e empresários dificilmente conseguem visto na primeira tentativa. Isso porque a primeira informação que recebem, em gravação telefônica ou no site, é de que o horário de funcionamento é das 8h30 às 11h30. Mas é na imensa fila que os brasileiros descobrem que os 150 atendimentos diários são insuficientes e, sem chegar de madrugada, não há possibilidade de atendimento. É também na fila - sem atendimento preferencial para idosos, grávidas ou deficientes - que se negociam senhas por até R$ 430. E só muito perto do horário do fim do expediente vem a confirmação de que a maioria não será contemplada com senha.
Com viagem de negócios marcada para Estados Unidos e México, um representante de uma indústria têxtil do interior de Santa Catarina saiu de sua cidade às 3 horas de quarta-feira, dia 26. Veio apenas com uma mochila e passagem de volta para as 15h52. Chegou ao consulado às 7 horas, e às 10h30 foi informado de que não conseguiria senha. Teve de voltar às 4h30 do dia seguinte e encontrou um cenário desolador. ¿O primeiro da fila tinha chegado às 21 horas, tinha gente com colchões... Não podia perder mais um dia de trabalho e decidi pagar R$ 100 a um cidadão¿, relatou Luiz, que também tirou visto de negócios no consulado americano, com agendamento pela internet. ¿Lá você espera dentro do consulado, tem lugar para sentar e espaço coberto.¿ Disse que apresentou as mesmas documentações nos dois consulados. ¿No americano, viram que sou casado, tenho dois filhos, tenho boas posses declaradas e vou viajar sozinho, ou seja, não sou o perfil aventureiro e deram o visto. No mexicano, insistiram com perguntas constrangedoras.¿
O casal Elaine e Roberto Amato, de 57 e 70 anos, também experimentou os serviços dos dois consulados. No americano, o problema estava em ter de esperar mais de um mês para conseguir agendar data para renovação do visto na internet. No dia marcado, foram encaminhados a uma fila expressa por causa da idade e, como já obtiveram vistos americanos em outros anos, conseguiram renovar sem problemas. No mexicano, entraram em fila única, na qual bebês, deficientes e grávidas têm o mesmo tratamento que jovens, adultos e os atravessadores que vendem vagas. Tiveram de voltar no outro dia, porque foram informados às 10 horas que chegar às 6h30 era muito tarde. Foram atendidos noutro dia, indo antes das 5h30. Mas Amato viu a mulher ter o visto rejeitado porque uma consulesa considerou insuficiente a aplicação financeira declarada no Imposto de Renda - maior que a dos imóveis que estão na declaração do marido.
¿Só nos sujeitamos a isso porque já compramos para o dia 13 o pacote para Cancún e Miami¿, disse Amato, inconformado. A consulesa que atendeu sua mulher pediu que eles retornassem com mais uma cópia do Imposto de Renda do marido. ¿No dia seguinte, o cônsul disse que só o imposto dela bastava¿, contou Amato. ¿É uma grande humilhação.¿
Em nota oficial, o Consulado-Geral do México em São Paulo atribuiu ao ¿enorme valor do México como destino turístico e de negócios¿ o ¿extraordinário número de pessoas¿ que procuram o escritório na Rua Honduras. Segundo a nota, o de São Paulo ¿é atualmente o primeiro ou segundo escritório consular do México no mundo com maior número de processos migratórios¿ e cada oficial consular atende uma média diária de 60 casos, 20 a mais que em 2007.
O consulado informou que ¿utilizará no futuro um sistema de agendamento eletrônico¿, em processo de configuração para coibir fraudes. Outra promessa é a de abrir escritório consular em Porto Alegre para desafogar a demanda dos brasileiros do Sul, que hoje têm de vir a São Paulo para ser atendidos.
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