Título: Lula e ministra resistem a acionar Polícia Federal
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2008, Nacional, p. A6

Receio é de que os agentes transformem a apuração em espetáculo, ampliem o foco do trabalho e vazem dados sobre a montagem do dossiê

Vera Rosa

O Palácio do Planalto teme a entrada da Polícia Federal na investigação sobre o vazamento de informações sigilosas envolvendo gastos do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). O receio é de que os agentes da PF transformem a apuração num espetáculo, ampliem o foco do trabalho e vazem dados sobre a montagem do dossiê que comprometam a Casa Civil. Mais: o governo avalia que a apuração pode sair do roteiro original e ferir de morte a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, hoje a principal candidata do PT à sucessão presidencial, em 2010.

Desde que estourou a crise dos cartões corporativos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma foram aconselhados mais de uma vez por auxiliares a escalar a PF para o caso, mas resistiram. É por esse motivo que nem Dilma nem o ministro da Justiça, Tarso Genro, foram taxativos, ontem, quando mencionaram a possibilidade de o governo recorrer à Polícia Federal. Embora tenha definido o vazamento como ¿crime¿, a ministra disse que o governo ainda vai ¿avaliar¿ se a PF deve entrar no caso. Tarso, por sua vez, afirmou que a corporação só será acionada a pedido de alguma autoridade - ¿seja a Procuradoria, a ministra da Casa Civil ou a própria CPI¿.

Lula desconfia de delegados da Polícia Federal por avaliar que vários deles são movidos pela disputa política. Já comentou várias vezes, em conversas reservadas, que a PF é um ninho de cobras e que é comum ver integrantes da corporação repassando dados sigilosos para prejudicar desafetos.

Nos últimos tempos, três episódios o deixaram furioso com a atuação da Polícia Federal. O primeiro foi a foto de uma montanha de dinheiro - R$ 1, 75 milhão - para comprar o dossiê antitucano, na campanha da reeleição, em 2006. Depois veio a operação da PF que derrubou o então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, em maio do ano passado, e, logo depois, a bisbilhotagem da vida de seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá.

¿Na medida em que a Polícia Federal é uma instituição que tem poder enorme, aumenta sua responsabilidade. E não é possível que problemas internos dentro da PF tenham como vítimas o trabalho legal que ela faz¿ , criticou o presidente, após o episódio que envolveu seu irmão mais velho. ¿Se houver briga política as pessoas vão pingando em um jornal uma coisa, em outro jornal outra coisa, e as pessoas sem direito de se defender são execradas, condenadas aos olhos da opinião pública. Cabe ao delegado investigar e não passar (informações) à imprensa.¿

Na prática, o governo quer desviar o foco das investigações sobre a montagem do dossiê, concentrando o trabalho na procura do espião do Planalto. O problema é que o informante pode não ser um traidor. Uma das pistas seguidas dá conta de que o ¿agente secreto com crachá¿ - como definiu Dilma, em tom de ironia - pode ser um servidor remanescente da época em que José Dirceu, abatido pelo escândalo do mensalão, em junho de 2005, chefiava a Casa Civil.

O funcionário teria divulgado a papelada com o intuito de mostrar que Fernando Henrique e sua mulher, Ruth, tinham despesas mais extravagantes do que Lula e Marisa Letícia, na tentativa de ajudar a base aliada na CPI dos Cartões Corporativos.

A outra versão, porém, vai na direção oposta: é de que a Casa Civil abriga um ¿infiltrado¿ do PSDB, funcionário de carreira com interesse em fulminar o governo do PT e ajudar os tucanos na CPI.

A crise preocupa o Planalto e ameaça a sustentação de Dilma no cargo, embora o presidente defenda a ministra com unhas e dentes. Dilma cancelou ontem a viagem que faria a Niterói e ao Rio, onde participaria de reunião com prefeitos e com o conselho da Petrobrás. Na noite de quinta-feira, ela chegou de Porto Alegre e seguiu direto para o Planalto. Lá se reuniu com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, até a meia-noite. Foi ali que o governo começou a desenhar a rota de fuga do terreno minado.

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