Título: Consumo resiste à alta do juro. Por enquanto
Autor: Pereira, Renée
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/04/2008, Economia, p. B6
Aumento da Selic não deve impedir ritmo de compra dos últimos meses
A retomada do ciclo de alta da taxa Selic, vista como certa pelo mercado, não deverá frear o consumo dos brasileiros, pelo menos até dezembro. Depois de longos anos de vacas magras, o consumidor se empolgou com as compras de bens e serviços nos últimos meses a ponto de incomodar o Banco Central (BC), que se reúne esta semana para tentar diminuir o crescimento acelerado da demanda e, assim, controlar o quadro inflacionário.
Na reunião que começa terça e termina quarta-feira, a aposta majoritária do mercado é de uma alta de 0,25 ponto porcentual. Mas, pelo perfil conservador do BC, especialistas não descartam a possibilidade de o aperto monetário atingir 2 pontos porcentuais até o fim do ano. Os consumidores, porém, já mandaram um recado aos dirigentes do BC: vão continuar consumindo enquanto as parcelas se acomodarem no orçamento da família.
Além da pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em que 73% dos entrevistados disseram que pretendem elevar ou manter o nível de consumo de dezembro de 2007, um levantamento divulgado na semana passada mostrou que 81% dos consumidores de baixa renda não sabem qual a taxa de juros cobrada nas compras parceladas. Para eles, o que importa é o tamanho da prestação.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, mostra que uma alta de 0,5 ponto porcentual na Selic elevaria em apenas R$ 0,44 cada parcela da compra de uma geladeira de R$ 1.500 em 24 vezes. ¿A alta dos juros não vai resolver o problema da demanda. Nos últimos meses, os bancos subiram as taxas e nada aconteceu. Mas a medida sinaliza que o BC está preocupado com a situação¿, diz a diretora da MB Associados, Tereza Fernandez.
Na avaliação dela, se há uma meta de inflação estipulada, o índice tem de ficar dentro dessa meta. ¿Você não cresce sem consolidar esse crescimento. O que o governo está tentando é evitar o famoso vôo da galinha.¿ Ela destaca que o aumento das importações tem apresentado variações expressivas de preços. Os bens de consumo não-duráveis, como alimentos, subiram 14,7% e os bens de capital, 4,2%, destaca a executiva.
O economista da LCA Consultores, Francisco Pessoa Faria Júnior, pondera, entretanto, que o BC deveria aguardar mais um tempo antes de decidir inverter a curva de juros. ¿Já podemos verificar que a economia tem crescido a um ritmo menor que o último trimestre do ano passado.¿ Além disso, avalia ele, está havendo a maturação dos investimentos anunciados nos últimos meses, o que equaliza a balança entre oferta e demanda. De acordo com dados da CNI, o uso da capacidade instalada caiu em fevereiro e voltou a níveis de outubro, com 82,9%. Em janeiro era de 83,1%, mas atingiu o maior índice da série em novembro, com 83,3%.
Outro fator agregado à lista de motivos para o BC não elevar os juros neste momento é a inflação global. O professor da Escola de Economia de São Paulo (EESP), da Fundação Getúlio Vargas, Marcio Holland, explica que o mundo tem hoje um novo patamar de inflação, contaminado especialmente pela alta das commodities.
Nos Estados Unidos, o índice de 2,4% de 2007 deve atingir 3,2% este ano, segundo dados da revista americana The Economist. Na China, a alta de 2,7% subirá para 4,5%; e na zona do euro, de 1,8% para 2,5%. O que os economistas explicam é que esse tipo de pressão inflacionária responde pouco à política monetária de queda de juros. ¿Não tem como combater com efetividade esse tipo de inflação. Subir juros não vai resolver o problema da demanda externa¿, afirma o economista da Austin Rating, Alex Agostini, também favorável à manutenção dos juros até junho.
Holland diz que o corte de gastos do governo teria mais eficiência no combate à inflação do que a alta dos juros. A medida agiria no foco do problema e diminuiria a demanda, que tanto aflige o BC. Além disso, a redução dos gastos não implicaria desvalorização ainda maior do dólar. Com a taxa mundial de juros em níveis reduzidos, os investidores voltam seus olhares para os países emergentes, onde podem ter maiores rentabilidades. Nesse cenário, a taxa de juros brasileira se torna um importante chamariz de capital estrangeiro, especialmente o especulativo.
Links Patrocinados