Título: Maxivalorização é a saída para a China
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2008, Négocios, p. B6
Medida deve ser adotada de uma só vez, entre 15% e 20%, para conter capital especulativo e reduzir a inflação, diz economista
Cláudia Trevisan
O governo chinês deve abandonar a estratégia de valorização gradual do yuan e adotar uma maxivalorização de pelo menos 15% da moeda em relação ao dólar. Do contrário, enfrenta o risco de estimular ainda mais a entrada de capital especulativo no país, que está por trás da explosão inflacionária dos dois últimos meses. A opinião é do economista americano Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Escola de Administração da Universidade de Pequim.
O ritmo de valorização da moeda se acelerou desde o início do ano e a cotação está prestes a ultrapassar a barreira de 7 yuans por dólar. A relação era de 8,30 por dólar em julho de 2005, quando a China mudou seu regime cambial. O problema é que o gradualismo cria a expectativa de valorização constante, o que estimula a entrada de capital especulativo, ressalta Pettis.
Nos meses de janeiro e fevereiro, o investimento estrangeiro direto saltou de 75,2% em relação a igual período do ano passado, para US$ 18,3 bilhões. Grande parte desses recursos acabou sendo usada para compra de yuans por investidores que apostam na contínua alta da moeda.
Na opinião de Pettis, a maxivalorização realizada de um só vez teria o poder de interromper esse fluxo de capitais e reduzir o descontrole monetário chinês. O economista admite que a medida é ruim, mas todas as outras alternativas são piores. A seguir, trechos da entrevista.
Em junho do ano passado o sr. escreveu um artigo intitulado ¿A última chance da China: deixar o yuan subir¿. Sua posição continua a mesma?
Quando escrevi, um dos pontos que ressaltei era que a idéia era considerada louca e quase todo mundo dizia `impossível, ridículo, isso não vai acontecer¿. Mas eu também disse que em seis meses isso estaria sendo debatido e, em um ano, seria uma das opções de política econômica. Meu sentimento era o de que as autoridades teriam de ir nessa direção. Eles não têm escolha. Agora é um debate freqüente, e a proposta foi apresentada várias vezes a Wen Jiabao [primeiro-ministro da China] e, até agora, tem sido descartada. Mas, se algumas coisas ocorrerem em março e abril, a pressão sobre o governo para adotar uma maxivalorização de um só vez aumenta de maneira considerável. A primeira é a inflação. Se a inflação não ceder e se espalhar para outras áreas além de alimentos, eles vão perceber que têm um sério problema monetário. A segunda coisa é se houver evidência - acredito que há - de que o capital especulativo continua a inundar a China em razão da política de rápida, mas gradual, valorização do yuan.
De quanto deve ser a valorização do yuan?
Eu defendo uma maxivalorização de uma vez, e não um pouco dia a dia. A valorização deve ter impacto sobre o fluxo de capitais para a China. Minha suposição é que esse índice seria entre 15% e 20%. Meu temor é que ocorra uma pequena valorização, ao redor de 5%, o que seria um desastre.
O governo manteve o gradualismo, mas claramente acelerou o ritmo de valorização do yuan desde o início do ano. O que há de errado com isso?
O problema é que não resolve. Nós esperamos que o yuan se valorize pelo menos 10% neste ano e provavelmente mais 10% no próximo. Se eles fazem uma valorização de 5%, isso não satisfaz, porque as pessoas continuarão a esperar nova valorização. Ao mesmo tempo, deixará muito claro para o mundo que o discurso de que o governo não faria uma valorização de uma vez não é verdadeiro. Se fazem uma vez, eles enviam um sinal ao mundo de que poderão fazer de novo.
A conseqüência seria o aumento do fluxo de capital especulativo para a China?
Sim, e esse é um enorme problema, porque cada dólar que entra na China é comprado pelo banco central e o banco central tem de criar dinheiro para comprar os dólares, o que provoca expansão na oferta de dinheiro. Na minha opinião, é isso que está provocando inflação. O aumento no fluxo de capitais significa mais inflação e excesso de investimentos.
O sr. diz que a China está numa ¿armadilha monetária¿. O que é isso?
A China está nesta armadilha desde 2002, 2003. Como a moeda foi fixada em um nível baixo, durante um período de enorme liquidez mundial, a China se viu no meio de um sistema que se auto-alimenta. O dinheiro entra no país pelo superávit comercial e pela conta de investimentos. É convertido em moeda local pelo banco central, que não tem outra escolha e tem de emitir dinheiro. O dinheiro termina nos bancos, que têm de emprestá-lo. O crédito para consumo na China é quase inexistente. As empresas contraem empréstimos e aumentam sua capacidade, o que eleva a produção industrial. O superávit comercial de um país é igual à sua produção menos seu consumo. Nos Estados Unidos, o consumo é maior que a produção, então há déficit. Na China, a produção é maior que o consumo, o que leva ao superávit. Tudo o que você produz tem que vender. Se não vende no seu país, vai vender no exterior. Na China, a produção está crescendo muito mais rápido que o consumo e a diferença é o superávit comercial. A única maneira de sair da armadilha de um mecanismo que se auto-alimenta é um ajuste radical. É um modelo similar ao que usei em 1997 e 1998, quando disse que o Brasil tinha de desvalorizar a moeda. Era uma armadilha diferente, na qual a alta na taxa de juros elevava a pressão sobre a moeda e, quanto maior era pressão, menor a confiança na moeda e, quanto menor a confiança na moeda, mais alta tinha de estar a taxa de juros.
Mas há grandes riscos numa maxivalorização do yuan.
A questão não é que a maxivalorização é uma ótima idéia e vai resolver todos os problemas. É que as alternativas são piores. Voltando ao Brasil, a desvalorização de janeiro de 1999 foi ruim, mas teria sido pior se não tivesse ocorrido. Esse é o problema que a China está enfrentando. Fazer uma maxivalorização cria vários problemas. É um choque para o setor exportador. A valorização gradual dá tempo para o setor exportador se ajustar. A valorização de uma vez não dá nenhum tempo, é da noite para o dia. Porque é um choque, pode ter impacto sobre o setor bancário, que está mais fraco do que muita gente pensa.
Qual o impacto, para o sistema bancário, de uma maxivalorização?
Nós não sabemos. O grande risco é a incerteza. Você pode argumentar que a maxivalorização aumenta o número de falências no setor exportador, o que eleva o volume de créditos irrecuperáveis, o que os leva a reduzir o crédito, o que leva a mais falências. Não há dúvida de que a maxivalorização de uma só vez é uma política ruim. O problema é que todas as demais são piores.
O que pode acontecer se a China não fizer a maxivalorização e mantiver a política de rápida, mas gradual valorização do yuan?
O risco é que fluxo de capital especulativo continue a crescer, o que trará mais e mais inflação e mais investimento em excesso de capacidade. As autoridades chinesas estão muito preocupadas com as implicações da inflação, mas há uma disputa interna no governo. Os monetaristas estão dizendo que a situação monetária está fora de controle - `precisamos desacelerar, se continuarmos assim, vamos cair em um abismo¿. Os líderes provinciais e pessoas dos setores industrial e comercial dizem: `Nós precisamos de qualquer maneira evitar o aumento do desemprego e precisamos de todo o crescimento que pudermos obter¿. Um desses lados estará certo, o outro, errado.
Quando ficará claro qual lado da disputa interna do governo chinês sairá vencedor?
Neste mês ou no próximo, dependendo da inflação. Em 11 de abril nós saberemos a inflação de março. Os índices de janeiro e fevereiro foram muito altos, mas é possível encontrar argumentos para justificá-los. Tivemos terríveis tempestades em janeiro e o ano-novo chinês foi em fevereiro. Então, são números distorcidos. Os números do primeiro trimestre é que vão ser relevantes.
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