Título: O preço da comida
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/04/2008, Notas e Informações, p. A3

O Brasil é um dos países mais preparados para responder aos desafios da crise gerada pela alta de preços dos alimentos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao declarar, na Holanda, que a agricultura brasileira pode produzir mais e atender à demanda crescente de comida, gerada principalmente pela expansão econômica de grandes países emergentes e pela incorporação aos mercados de grandes massas de consumidores.

A nova situação dos preços produz efeitos dramáticos nos países pobres e mais dependentes da importação de alimentos. Os problemas causados pelo encarecimento da comida podem equivaler à perda de sete anos dos programas de redução da pobreza, disse o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Também o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, está preocupado com o risco de se perder boa parte do esforço de resgate dos mais pobres.

Ainda não se pode, a rigor, falar de escassez de comida. As cotações não dependem somente das quantidades de fato comercializadas, mas também dos estoques, que diminuíram depois de episódios de seca em algumas áreas produtoras, especialmente na Austrália. Outro fator importante, do lado da oferta, foi o aumento do uso do milho, nos Estados Unidos, para a produção de etanol. Do lado da procura, o grande fator tem sido o aumento da renda de milhões de trabalhadores na Ásia.

Ganhos maiores também resultaram em novos hábitos. Mais dinheiro no bolso tende a resultar em maior consumo de carne. Assim, a procura de alimentos de origem animal cresceu naqueles países. A nova demanda criou um desafio para os produtores de carne e também para os plantadores da soja e dos cereais usados na fabricação de rações.

Os problemas, no momento, resultam essencialmente do aumento muito veloz dos preços. Boa parte da população africana e das áreas mais pobres da Ásia não ganha o suficiente para suportar um grande aumento de gastos com a comida. Em Bangladesh, como exemplificou Robert Zoellick, dois quilos de arroz custam metade do rendimento diário de uma família pobre. O preço do produto aumentou cerca de 75% em apenas dois meses.

No lado oposto do cenário estão os países com maior capacidade para produzir alimentos. Enquanto muitos países importadores enfrentam o agravamento das condições sociais e perdas na balança comercial, os exportadores líquidos têm ganhos comerciais significativos. Não estão livres das pressões inflacionárias originadas no mercado internacional, mas têm melhores condições para se ajustar às novas conjunturas. O Brasil é um desses países.

Os grandes produtores agrícolas já respondem ao estímulo dos preços. O Brasil colhe neste ano mais uma safra recorde de grãos e oleaginosas. A safra 2008-2009 dos Estados Unidos, segundo as primeiras estimativas, deve ser bem maior que a anterior. A alta de preços dos alimentos, além disso, contribuiu, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, para esfriar um pouco o interesse pela produção de biocombustíveis. No Brasil, a fabricação de etanol pouco tem afetado a oferta de comida, ao contrário do que ocorre nos EUA, que fabricam álcool de milho.

A resposta dos países produtores ainda não basta para afetar sensivelmente o quadro de preços. Mesmo a desaceleração da economia global deverá afetar de forma limitada o mercado de alimentos. Os fatores que causaram o grande salto recente das cotações permanecem ativos e ainda têm sido reforçados pela especulação com as commodities, convertidas em ativos financeiros.

Algumas dessas transformações são estruturais. É o caso da enorme ampliação do mercado consumidor em países dependentes da importação de alimentos. É também o caso de alguns programas de biocombustíveis, pelo menos daqueles economicamente defensáveis, como o brasileiro. Há muito espaço, portanto, para maiores investimentos na produção agrícola. Para o Brasil, trata-se de aperfeiçoar políticas que têm dado certo. Mas será preciso, também, contribuir para que os países pobres, especialmente os da África, possam explorar suas potencialidades agrícolas. O Brasil, como observou Zoellick, tem uma respeitável experiência na área da pesquisa agropecuária e pode partilhá-la com outros países.

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