Título: A gente vai para onde o mercado leva
Autor: Tomazela, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/04/2008, Economia, p. B6
Produtor do sudoeste paulista arrendou terra para usina, mas já fez caminho de volta e trocou cana por grãos
De uma família tradicional de agricultores imigrantes da Itália, o produtor rural Djalma Possignolo Zambianco, de 45 anos, viu-se numa encruzilhada, há cinco anos. Depois de um longo ciclo de safras frustradas, sobretudo em decorrência dos baixos preços da soja, milho, feijão e trigo, seus principais produtos, ele recebeu uma proposta de arrendar as terras da Fazenda Santo Antonio do Pinhal, em Itapeva, no sudoeste de São Paulo, para uma usina de cana-de-açúcar.
A idéia de transformar aquelas terras férteis e produtivas do Vale do Paranapanema em um grande canavial não agradava ao agricultor, mas ele não teve como resistir. ¿Eu estava atolado em dívidas e, com a febre do etanol, a usina fez uma oferta muito boa.¿ Com a concordância dos irmãos Adilson e Ari, seus sócios na propriedade, ele repassou 150 dos 200 hectares de terra própria para o plantio da cana.
Dezenas de agricultores da região, que é a maior produtora de grãos do Estado de São Paulo, agiram da mesma forma. Na época, a área destinada à produção de grãos na região caiu cerca de 10%, embora o avanço da cana tivesse ocorrido principalmente sobre áreas de pastagens, de acordo com dados da Secretaria de Agricultura do Estado.
SALVAÇÃO
Para Zambianco, o dinheiro do arrendamento e a produção de cachaça num pequeno alambique montado na fazenda garantiram os recursos para evitar a quebra financeira. ¿Na época, a cana foi a salvação da lavoura¿, disse. De lá para cá, o processo se inverteu: os preços da cana-de-açúcar caíram e a cotação dos grãos disparou.
Ele lembra que vendeu milho a R$ 10 a saca, sendo que o preço atual é de R$ 22, e soja a R$ 20 - na sexta-feira estava a R$ 44. ¿Hoje, os preços estão bons, mas, na época, não cobriam o custo de produção.¿
Zambianco acredita que a culpa pela redução na área de produção de alimentos não é do produtor. ¿O agricultor vai para onde o mercado o leva¿, afirmou. No ano passado, ele iniciou o caminho de volta, substituindo a cana por grãos. Dos 150 hectares do arrendamento, foram renovados apenas 25 com a usina. Na área restante, foram plantados milho e soja.
Outra área, de 72 hectares, sob pivô de irrigação, está reservada para o cultivo de feijão. Zambianco teve a oportunidade de desfazer um mito de que as terras usadas pela cana-de-açúcar perdem produtividade quando recebem outra cultura. ¿A produção está sendo muito boa¿, garantiu.
Os irmãos decidiram ampliar o cultivo de grãos e arrendaram 280 hectares de outros produtores. Ele não concorda com a tese de que a produção de biocombustível é responsável pela redução na oferta de alimentos, como acusam representantes de países ricos. ¿O que prejudica é a falta de uma política agrícola¿, disse. ¿Agora, por exemplo, todo mundo voltou a plantar milho e soja. Com certeza vai haver produção em excesso e o preço pode cair.¿
Na região, outros agricultores que tinham arrendado áreas para o plantio de cana, voltaram atrás, atraídos pelos bons preços dos grãos. ¿Conheço produtores que arrancaram a cana depois do segundo corte.¿ Normalmente, essa cultura rende até cinco cortes consecutivos, à média de um por ano.
O produtor conta que muitos agricultores incluíram a cana no sistema de rotação de culturas. ¿Quem deixava a terra descansar, agora faz um uso mais contínuo.¿ Ele mesmo decidiu montar uma pequena destilaria no sítio para transformar em aguardente a cana produzida em 20 hectares.
Com o investimento de R$ 200 mil, ele espera produzir 300 mil litros este ano, embora a capacidade total chegue a 1 milhão de litros/ano. A aguardente recebeu a marca ¿Tulinha¿, em uma homenagem ao patriarca da família, Valdemar Zambianco, falecido recentemente, que era conhecido por esse apelido.
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