Título: Não falta comida, o que falta é cabeça!
Autor: Rocha, Marco Antonio
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/04/2008, Economia, p. B2

Há problemas em relação aos quais os condutores da economia do mundo podem tergiversar longamente. Os problemas do abastecimento de gêneros de consumo diário não fazem parte dessa lista. Qualquer risco de escassez de comida tem de ser combatido imediatamente com todo o arsenal de armamentos que um governo tenha em seu poder. Primeiro, por causa do imenso potencial de desarranjo da vida pública que esse tipo de problema carrega consigo. Segundo, porque a simples probabilidade de que ocorra já desencadeia a escassez, posto que as famílias correm a se sobreabastecerem, como prevenção.

Eis por que governos de diversos países estão tomando medidas para proibir a exportação de alguns gêneros de primeira necessidade, e mesmo o do Brasil tenha cogitado disso em relação ao arroz, na semana passada, recuando, porém, da intenção, depois de examinar melhor o problema.

Nas últimas duas semanas autoridades econômicas e financeiras ao redor do mundo deixaram um pouco de lado as aflições desencadeadas pela crise do crédito nos EUA e se puseram a olhar com inegável sobressalto para o que vem acontecendo com os preços das commodities de primeira necessidade: trigo, arroz, milho e feijão. Não porque os preços dessas mercadorias estejam aumentando. Isso já era em grande medida esperado, como conseqüência da ação de vários fatores que impulsionam a alta, entre eles, com grande importância, aquele que se pode qualificar como fator desejável: grandes parcelas da população mundial, em países periféricos ou emergentes, alimentam-se mais e melhor por terem conseguido níveis mais elevados de poder aquisitivo.

Assim, pode-se festejar que o mundo esteja talvez entrando numa fase de vitórias parciais e, oxalá, permanentes, da sua milenar guerra contra a fome. Há, de fato, fortes esperanças de que isso esteja acontecendo, de maneira esporádica, a despeito da comunidade internacional não ter aceito a exortação do presidente Lula de um programa formal e internacionalmente concatenado de ¿fome zero¿. Os inegáveis indícios, no Brasil e no mundo, de que a população pobre está podendo comprar mais e melhores alimentos devem ser motivo de comemoração.

O problema é que esse bom fenômeno... cria problemas! Um deles, mais imediato, é o do encarecimento generalizado da comida, que, de resto, serve para moderar um pouco o ímpeto com que grandes massas populacionais - da Ásia e da África, principalmente - se atirariam ao seus pratos de lentilhas ao melhorar de vida. O que se poderia mostrar avassalador. Esse encarecimento, todavia, não é disruptivo; acompanha o ritmo de crescimento do poder aquisitivo das populações pobres - os ricos, nesse caso, não são fator de encarecimento, porque é suposto que já consumam toda a comida que desejam ou de que precisam e, assim, não estariam aumentando essa demanda. Um ritmo gradual de aumento da demanda dos pobres pode perfeitamente ser seguido pelo aumento da produção, e até o estimula.

O que acontece é que outros fatores contribuíram, pesada e subitamente, para a alta dos preços dos alimentos. O mais visível é a alta do petróleo, cujos derivados têm participação importante nos custos de produção, transporte, silagem, distribuição, armazenamento, conservação, frigorificação das commodities em geral e dos alimentos processados. Não pode haver dúvida de que esse fator de alta dos preços dos alimentos supera qualquer outro. É absolutamente estranha e completamente deslocada a opinião, até de alguns líderes mundiais, de que o aumento da produção de etanol tem parte substancial da ¿culpa¿ pelo aumento dos preços dos alimentos. A parcela da produção de alimentos, supostamente deslocada pela produção de etanol no Brasil, por exemplo, se de fato existe, é desprezível. Nos EUA, a produção de milho sofreu de fato algum deslocamento, mas não fica claro em que isso teria favorecido o aumento, em um ano, de 120% no preço do arroz ou de 75% no preço do trigo.

Esses, realmente, são números alarmantes. E produzem efeitos sociais imediatos. O Banco Mundial estima que 33 países estão no momento a braços com perturbações sociais mais ou menos graves por causa dos aumentos dos preços de alimentos e da energia: Indonésia, Filipinas, Camarões estão tendo desordens nas ruas e pessoas já foram mortas em tiroteios por comida em várias localidades do planeta. O atual diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, advertia recentemente que a contínua elevação dos preços dos alimentos, na velocidade com que tem ocorrido, terá conseqüências ¿terríveis¿, inclusive a fome para ¿centenas de milhares de pessoas¿ e o risco de guerra.

É claro que algumas ações emergenciais, como os US$ 200 milhões ofertados pelo governo americano ou os US$ 500 milhões solicitados pelo Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, podem trazer alguns alívios localizados.

Todavia, o que é preciso ter em mente é que a causa fundamental dessa situação emergencial não é propriamente falta de comida. Nem é o fato de mais gente estar comendo melhor no mundo. É a falta de visão, competência e articulação entre as atuais nações líderes do planeta, no que se refere a três assuntos estratégicos básicos: políticas energéticas, políticas alimentares, políticas monetária e financeira, que se resumem na questão do preço do petróleo, dos disparatados e conflitantes subsídios agrícolas dos países ricos e nos déficits do governo americano com a conseqüente decadência do dólar.

Equacionar essas três questões de modo a proporcionar um horizonte seguro para os alimentos - cujo aumento de produção tem resposta rápida em ambiente favorável - é a tarefa que se impõe aos líderes dos principais governos mundiais. O problema é saber se algum deles tem noção disso...

*Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

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