Título: As tarifas de Itaipu devem seguir o mercado
Autor: Lu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/04/2008, Economia, p. B21
Para o ministro, o governo brasileiro vai ouvir as reivindicações do Paraguai e decidirá de que forma poderá ajudar o país
É cedo para definir que tipo de apoio o Brasil poderá dar ao Paraguai, avalia o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. É preciso, primeiro, saber o que os paraguaios querem. Na semana passada, ele concedeu entrevista ao Estado.
O senhor disse que não pretende mexer nas tarifas de Itaipu. Mas, e se houver uma decisão do presidente Lula a respeito?
Só existem duas circunstâncias em que o reajuste poderia ser concedido. Se houvesse determinação do presidente da República ou se fizesse um reajuste total de tarifas. As tarifas de Itaipu devem seguir o mercado, do contrário seria aplicar dois pesos e duas medidas.
E a idéia de antecipar para o Paraguai as receitas da venda de eletricidade ao Brasil?
Não depende de mim, e sim dos Ministérios da Fazenda, das Relações Exteriores e da Presidência da República. Se julgarem conveniente, não tenho nada a opor.
Como está a nova linha de transmissão de Itaipu para a região de Assunção?
Em fase de estudos e elaboração de projetos.
O Brasil vai bancar tudo, novamente?
A idéia do Paraguai é obter um empréstimo no Brasil, provavelmente no BNDES.
O presidente eleito do Paraguai fez toda sua campanha política atacando o acordo de Itaipu. Se não se pretende mexer no acordo nem - como o senhor diz - nas tarifas, o que restará a ele para apresentar a seu eleitorado? O governo brasileiro não vai cooperar com nada?
O Brasil é tão amigo do Paraguai que, quando a Itaipu Binacional foi criada, em 1973, foi necessário investir US$ 100 milhões. O Brasil entrou com seus US$ 50 milhões e emprestou os US$ 50 milhões ao Paraguai, com juros baixíssimos, de 6% ao ano.
Uma das razões que levaram o governo a reformular a Eletrobrás foi facilitar investimentos considerados estratégicos na área de integração energética da América do Sul. Quer dizer que no futuro, além de Itaipu e do gasoduto Brasil-Bolívia, teremos outros investimentos com potencial de problema com os vizinhos?
Não são problemas. São discussões normais. Nunca tivemos problemas com Itaipu. Funcionamos desde 1984 sem problemas. É uma reivindicação que o Paraguai está fazendo e o Brasil vai examinar.
Estamos vulneráveis em relação ao Paraguai como estivemos em relação à Bolívia? Alguém poderia, por exemplo, desligar as turbinas de Itaipu? Se isso fosse possível, e não é, qual é o interesse que o Paraguai teria, se ele tem em Itaipu seu maior patrimônio, sua maior riqueza?
O lucro anual, de quase US$ 300 milhões. Além disso, seria de uma hostilidade inconcebível. Essa pergunta, se me desculpa, nem teria cabimento.
Antes das eleições, empresários brasileiros temiam que o Paraguai se transformasse em uma nova Bolívia. Também estavam preocupados com o risco de um aumento tarifário, dado o tom das campanhas eleitorais.
Não vai acontecer nem uma coisa, nem outra.
O presidente eleito Fernando Lugo vem ao Brasil conversar com o presidente Lula. Que tipo de concessões poderiam ser discutidas?
Não se deve atravessar o rio antes de chegar à margem. Se ele nem trouxe as reivindicações, por que vou falar sobre elas?