Título: Cresce pressão nas contas externas
Autor: Lu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2008, Economia, p. B3

Possível aumento da entrada de dólares pode prejudicar balança comercial e favorecer a remessa de lucros

A classificação do País como economia de investimento seguro não trouxe só notícias boas. O anúncio do grau de investimento na mesma semana em que foram divulgados os números da balança comercial de abril e do rombo nas contas externas, que tende a ficar maior e vem se deteriorando aceleradamente, jogou luz sobre três desafios que o Brasil tem agora pela frente: uma balança comercial com desempenho fraco; vai entrar mais dinheiro, mas também vai sair muito dinheiro em remessas de lucros das empresas; se houver uma forte retração da economia mundial, pode secar a fonte de investimentos fartos para tapar o buraco das contas externas.

Em síntese, como diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, ¿ter como financiar o déficit (das contas externas) não muda o fato de que o déficit existe¿. Explicando melhor: ¿O sujeito decide trabalhar menos, passa a receber metade, mas, de repente (com o grau de investimento), ganhou um cartão de crédito com saldo ilimitado.¿

COMÉRCIO FRACO

Na última segunda-feira, o Banco Central (BC) divulgou o resultado das transações correntes do Brasil, que englobam entradas e saídas de dólares pelas vias do comercial, de serviços, financeira e outras transferências. Os números, referentes a março, surpreenderam os especialistas e o próprio governo. O esperado era um saldo negativo da ordem de US$ 3 bilhões. Na realidade, foram US$ 4,429 bilhões, um recorde para os meses de março nos registros do BC, que começaram em 1947.

O déficit acumulado nos três primeiros meses do ano (US$ 10,757 bilhões) também é recorde. Em abril, é provável que o saldo negativo já tenha ultrapassado a estimativa do BC para o ano inteiro, que era de US$ 12 bilhões. O dado ainda está sendo calculado, mas deve estar em mais de US$ 13 bilhões, segundo admite o próprio BC.

A deterioração, cuja intensidade surpreendeu os analistas, se deve principalmente ao fraco desempenho da balança comercial, que é um componente das transações correntes. Segundo cálculos do Iedi, 53,5% da piora do resultado do primeiro trimestre, comparado a igual período em 2007, se deve ao comércio.

Outros 42,7% da deterioração da conta se devem ao crescimento das remessas de dinheiro ao exterior na forma de lucros e dividendos. As empresas estrangeiras que operam no Brasil estão registrando grandes lucros aqui e amargando prejuízos lá fora, por causa da crise internacional. Por isso, as filiais brasileiras intensificaram o envio de recursos. Essa manobra é favorecida ainda pelo fato de o dólar estar barato, ou seja, reais lucrados aqui valem mais dólares.

DÓLAR ENCOLHE

O grau de investimento pode agravar o desempenho desses dois componentes. É esperado um aumento no volume de capital estrangeiro aplicado aqui. Essa avalanche de dólares vai jogar a cotação da moeda estrangeira para baixo, piorando o resultado da balança comercial. Além disso, os novos investimentos vão gerar mais lucros e dividendos a serem remetidos ao exterior. Por isso, o déficit nas transações correntes tende a bater novos recordes.

Na avaliação do BC, o ¿rombo¿ nas contas externas registrado até agora não preocupa porque ele é compensado pelo forte ingresso de investimentos estrangeiros diretos (voltados para a produção). Porém, no primeiro trimestre, o volume desses investimentos (US$ 8,799 bilhões) foi inferior ao déficit. A diferença foi coberta por empréstimos tomados por empresas brasileiras no exterior.

Do ponto de vista técnico, considera-se assim que o déficit foi financiado. Ou seja, o ¿rombo¿ nas transações correntes foi compensado com o ingresso de dólares por outras vias. Nesse sentido, o grau de investimento é uma boa notícia, pois vai aumentar o fluxo de investimentos para o País. A dúvida é se esse arranjo se sustenta.

Para Gomes de Almeida, do Iedi, o Brasil não enfrentará problemas este ano. ¿Talvez em 2010 ou um pouco mais¿, calcula. O início da próxima década é considerado um período crítico, que poderá ser superado quando os novos campos de petróleo e gás começarem a ser explorados e o Brasil passar a exportar esses produtos.

Avaliação semelhante é feita pelo diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima. ¿Há um problema estrutural que o grau de investimento não resolve¿, diz.

Ele se refere ao fato de que a balança comercial, que nos últimos cinco anos manteve o saldo de transações com o exterior positivo, agora está fraca. Para Lima, o saldo comercial tende a minguar cada vez mais, porque as importações crescem não só em quantidade, como também em preço. ¿O Brasil não está sendo tão beneficiado pela alta das commodities como era de se esperar¿, afirma.

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