Título: Técnica inibe piora da dengue
Autor: Gonçalves, Alexandre
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/05/2008, Vida&, p. A21

Cientistas taiwaneses desvendaram mecanismo que dispara forma hemorrágica da doença

Pesquisadores taiwaneses descobriram um modo de evitar que a dengue clássica assuma as formas mais graves da doença - a dengue hemorrágica ou a síndrome do choque da dengue. A chave para compreender as formas mais letais da doença é uma substância, a CLEC5A, presente na membrana das células infectadas pelo vírus da dengue. Ela reconhece a presença do invasor e dispara um complexo mecanismo imunológico que culmina na liberação de citocinas pró-inflamatórias, proteínas capazes de inflamar tecidos. O problema ocorre quando o organismo perde o controle sobre esse processo. Surge então o quadro hemorrágico ou a síndrome do choque da dengue.

Na pesquisa, publicada ontem no site da Nature (www.nature.com), camundongos infectados receberam injeções de anticorpos para neutralizar a CLEC5A e impedir a interação da substância com o vírus da dengue. A taxa de mortalidade dos animais diminuiu 50%, confirmando a hipótese de que a técnica é eficaz para controlar a inflamação fatal.

Os cientistas taiwaneses utilizaram camundongos geneticamente modificados, mais propensos a formas severas de infecção viral. Por isso, sempre desenvolviam a forma hemorrágica da doença.

Outros receptores da membrana celular, semelhantes à CLEC5A, podem facilitar a entrada do vírus no macrófago (principal tipo de célula atingida), mas desempenham um papel importante na liberação de substâncias como o Interferon-a, essencial para que o organismo vença a guerra contra o vírus. ¿O desafio era controlar a inflamação, sem diminuir as proteções antivirais das células¿, afirmou, em entrevista ao Estado, Shie-Liang Hsieh, co-autor do estudo e pesquisador do Instituto de Microbiologia e Imunologia da Universidade Nacional Yang-Ming em Taipé (Taiwan). ¿Felizmente, descobrimos que o bloqueio da CLEC5A não interfere na resposta natural ao vírus.¿

APLICAÇÃO CLÍNICA

¿Levará de três a cinco anos para que a terapia seja aplicada em seres humanos¿, estima Hsieh.

Para o pesquisador do Laboratório de Imunopatologia do Instituto Oswaldo Cruz no Rio, Marciano Paes, a previsão é excessivamente otimista. ¿Uma terapia como essa talvez leve de cinco a dez anos para ser usada de forma abrangente¿, aponta Paes. ¿No caso da dengue, a forma como a população reage a uma terapia depende da predisposição genética. Serão necessários vários testes.¿

Ana Maria Sell, professora do Departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá, concorda que a previsão de Hsieh é otimista, mas considera a terapia viável e elogia o trabalho ¿meticuloso¿ dos cientistas de Taiwan.

A professora do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Erna Kroon, afirma que a pesquisa ¿traz uma grande contribuição¿ e ¿abre um campo de estudo inovador¿.

NO BRASIL

Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio, divulgados no dia 15, houve 941 casos de dengue grave no Estado. Já foram confirmados 109 óbitos. O chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lembra um dado divulgado pela Organização Mundial da Saúde: quando a dengue grave é tratada logo nos primeiros sintomas, a taxa de mortalidade é inferior a 1%. ¿No Rio, é mais de 11%¿, lamenta Medronho.

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