Título: Crédito para investimento rural pode ser ampliado
Autor: Salvador, Fabíola
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/05/2008, Economia, p. B10

Em reunião com ministros, presidente ouve que a produção maior de grãos depende de dinheiro, corte de impostos e melhora na infra-estrutura

Com o diagnóstico de que a crise dos alimentos persistirá, o Brasil só poderá se tornar um celeiro e grande exportador de grãos, como deseja o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se houver aumento do volume de crédito para investimentos em infra-estrutura, corte de impostos para toda a cadeia produtiva e medidas objetivas para reduzir o preço dos insumos e defensivos agrícolas.

Esse foi o quadro que os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, traçaram ontem, durante a reunião de mais de duas horas com o presidente Lula para discutir a escassez e o aumento de preços dos alimentos.

A reunião - que contou com a participação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e dos presidentes do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho - não foi conclusiva. Esse não era o objetivo de Lula. O que o presidente quer é ampliar o debate sobre a crise dos alimentos com especialistas do setor.

Um novo encontro foi marcado para meados de junho, quando se espera ter um quadro mais claro sobre os recursos necessários para dar um novo impulso à produção agrícola. O setor é bem abastecido com o crédito para custeio, mas foi identificado que são poucos os recursos para investimentos. Lula apoiou a iniciativa dos ministros e disse que, para o governo, não adianta a economia ter bons resultados em outras áreas se não houver comida suficiente e se os preços dos alimentos estiverem muito altos.

Lula relatou aos ministros que, na semana passada, em encontros que manteve com presidentes de outros países, o tema de todas as conversas foi a crise dos alimentos. Stephanes defendeu mais crédito para investimentos, incluindo a melhoria de qualidade da terra e da capacidade de armazenamento.

¿Isso daria melhores condições para a negociação dos preços¿, ponderou Stephanes, segundo um dos participantes da reunião. Ele lembrou que, nos últimos 10 anos, o consumo mundial foi 150 milhões de toneladas maior que a produção de grãos. Se não fosse o aumento da produção brasileira, esse déficit seria de 450 milhões de toneladas.

Independentemente dessa ofensiva para médio e longos prazos, o governo deve anunciar até o fim de junho medidas para estimular a produção de grãos, com ênfase no milho, trigo, feijão e arroz, classificados por Stephanes como ¿sensíveis¿. Cassel, por sua vez, defendeu a elevação do rendimento da agropecuária no curto prazo para estimular a produção e eliminar os temores de alta dos preços no mercado interno e os reflexos nos índices de inflação.

Mantega falou do aumento da demanda por alimentos e o impacto na inflação. Segundo o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Wagner Rossi, o ministro avaliou que há uma demanda mundial crescente, mas a situação no Brasil é diferente, pois o País consegue produzir para abastecer seu mercado interno e ter excedentes para exportação. ¿O Brasil é uma ilha neste momento de crise¿, definiu.

Rossi admitiu, no entanto, que isso não impede que os preços no mercado interno sejam ¿contaminados¿ pelas altas no exterior. A elevação de preços é observada, segundo ele, também nos insumos agrícolas, que são, na maioria, importados. COLABOROU LUCIANA NUNES LEAL