Título: Conflito com índios atrasa usinas
Autor: Pamplona, Nicola
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/05/2008, Economia, p. B11
Há estudos parados há mais de um ano, por obstrução à entrada de técnicos nas áreas
A resistência de comunidades indígenas está atrasando a avaliação do potencial hidrelétrico de quatro bacias da Amazônia, informou ontem ao Estado o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. Segundo ele, há estudos com atraso superior a um ano, por causa da obstrução da entrada dos técnicos nas reservas próximas às áreas em análise. ¿Se o problema não for solucionado, aumenta o risco de termos que colocar mais térmicas no sistema.¿
A EPE encontra dificuldades de concluir os trabalhos nas bacias dos rios Aripuanã e Juruena, em Mato Grosso; Branco, Roraima e Araguaia, no Tocantins (este último em fase de avaliação ambiental integrada). Os estudos fazem parte de um esforço da empresa para identificar novas usinas para leilão. Nesse sentido, a EPE fechou a avaliação do rio Teles Pires, também em Mato Grosso, onde identificou cinco potenciais usinas, com capacidade superior a 3 mil megawatts (MW).
De acordo com Tolmasquim, nas bacias onde enfrentam resistência, os técnicos sequer são autorizados a fazer as medições necessárias. As operações são coordenadas com a Fundação Nacional do Índio (Funai), que age como interlocutor entre as equipes técnicas e as comunidades indígenas, mas não tem poder para interferir na decisão dos líderes locais.
¿O diálogo com as comunidades indígenas não é fácil: há reservas com mais de uma tribo, há tribos com dois caciques. E, às vezes, as lideranças aproveitam para pedir coisas que não têm a ver conosco, como escola, posto de saúde¿, diz o presidente da EPE, que classificou como ¿indesejável¿ o incidente ocorrido anteontem no Pará, envolvendo o engenheiro Paulo Fernando Rezende.
A tendência é que os conflitos com comunidades indígenas se intensifiquem, à medida que a fronteira energética brasileira avança sobre a Amazônia. Pelos dados da EPE, apenas 9% do potencial hidrelétrico da floresta está sendo aproveitado - em usinas prontas, em construção ou em processo de concessão. Outros 44% já estão inventariados. Sobre o restante, não há estudos técnicos. Nas bacias onde há dificuldades para o inventário, o potencial estimado é de 10 mil MW, quase o mesmo previsto para Belo Monte. Desse total, 5 mil MW estão na Bacia do Juruena, que já tem projetos sob concessão e, por isso, já foi alvo de protestos.
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